
Sempre é tempo de recomeçar
Enquanto houver oxigênio haverá problrmas, e é um bom sinal, pois nos problemas estão os maiores desafios e estes nos fazem sentimos vivos.
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Elas me inspiram: Aracy Balabanian

sábado, 13 de outubro de 2018
Elas me inspiram: Betty Faria
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Tormento, não lamento
Prefiro a dor do tormento
Esse eterno sofrimento
Da angústia de te amar
A viver só de lamento
Perdido no pensamento
De como seria te beijar?
Prefiro viver atordoado
Perdido em pecado
Por tanto te amar.
Prefiro as penas do inferno
Um castigo eterno
A viver sem teu olhar.
Prefiro perder de vez o céu
Pra provar de novo esse mel.
E acordar no céu lençol.
Prefiro perder a paz e a luz
Pra ter você na minha vida
Para sempre meu farol.
Nair Gevezier 12/09/2018.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
A menina e o livro
Na ponta dos pés sobre um banquinho em frente à estante, Marina tenta alcançar um livro. São tantas histórias incríveis que seus olhinhos ficam embriagados e seus pezinhos quase a derrubam.
Ela tenta alcançar Dom Quixote, ouviu sua mãe narrar a luta contra os gigantes moinhos de vento. Ela quer ter certeza se eram gigantes, ou moinhos. Na época ainda não sabia ler, e sua mãe pode ter se enganado.
Bem ao lado do herói de"La Mancha", estão as aventuras de "Robson Crusoé", e agora? Qual dos dois Marina vai resgatar da estante? E mais difícil! Suas mãos pequeninas não conseguem chegar a nenhum deles. Ela não quer pedir ajuda. É um momento muito importante da sua vida! A escolha do primeiro livro, o qual fará a leitura sozinha. Não pode haver interferência!
Oh, dúvida cruel! Mas na prateleira logo abaixo, bem ao alcance de suas mãos, está lá, todo exibido, doido para ser lido, manuseado, "Memórias de Emília ", do incrível Monteiro Lobato.
A boneca já é sua conhecida faz tempo, então decide por ela.
Logo no início se surpreende ao constatar que para escrever suas memórias, A "Marqueza de Rabicó", "não quer cansar sua mãozinha " recorrendo ao Visconde de Sabugosa para escrevê-las.
Decepciona-se com a boneca de pano, que pensa feito gente, nos trechos os quais ela é malcriada e grosseira com "Tia Nastácia ", mas não desiste da leitura. "Emília era boneca e virou menina. Meninas às vezes fazem malcriações." Pensava enquanto lia.
Mais adiante na leitura Marina encontra Dom Quixote, olha que bacana! Emília também gosta do herói sonhador, "que só queria um mundo mais justo ", e isso lhe custou a vida e a sanidade mental. A boneca não concordava com isso!
Ao final do livro percebe que Emília, apesar de malcriada e abusada é a criatura mais pensante que já conheceu. Ela pensa, diz o que pensa e como pensa. Isso a assustou no início e vem assustando muita gente ao longo dos tempos.
Emília não se conforma com as injustiças do mundo e não se cala diante delas. Sua sinceridade absurda choca a muitos, como Marina que doutrinada a não dizer certas palavras, " favela não, Marina! É comunidade!" Seu raciocínio coerente e sem "blá blá blá ", afinal bonecas não precisam de hipocrisia, comove Marina. Fazendo com que termine a leitura com lágrimas nos olhos e muitas ideias na cabeça.
Nair Gevezier 16/07/2018.
domingo, 15 de julho de 2018
Hoje eu sei
Hoje eu sei, acredito
Que tinha que acabar
"Tudo o que é bom
Dura um tempo exato
Para que possa para
Sempre perdurar."
Mas não foi fantasia
Tão pouco ilusão
Era uma onda forte
Que crescia
Uma louca e inesquecível paixão.
Hoje eu sei, não duvido
Nosso amor para sempre vai durar.
Só se transformou em bruma
Como as ondas do mar.
Com o tempo, tudo muda
A vida tem de seguir
Sigo em frente, vou à luta
E outra paixão hei de sentir.
Hoje eu sei, acredito
Não podia mas durar
Mesmo longe dos teus olhos
Eu pra sempre vou lembrar.
Nair Gevezier 15/07/2018.
Da época que fui feliz VII final
Imaculada ainda abalada com as revelações de Ricardo, chorou aos pés de Tieta.
TIETA: __ Mas o que é isso, uma cabrita valente feito você, chorando desse jeito só por causa de uma conversa! Vê se tem cabimento isso?
IMACULADA: __ Não é isso D. Tieta. Ricardo está decidido a se separar de mim.
TIETA: __ Lá atrás, quando eu tomei minhas providências e fiz com que Ricardo notasse o seu amor por ele, eu achava que estava fazendo o melhor para os dois. Mas eu errei. Errei em parte, é claro! Vocês foram felizes, tiveram filhos lindos, mas agora, isso acabou, pelo menos para ele.
IMACULADA: __ Mas e eu, como fico? Ricardo não quer mais está casado e me deixa simplesmente. Como uma roupa da qual enjoou?
TIETA: __ Deixe disso que tu sempre foi forte e determinada, é capaz de superar essa situação e dar a volta por cima.
IMACULADA: __ A senhora diz isso porque tem Ricardo aos seus pés.
TIETA:__ Minha história com Ricardo é coisa lá do passado, não tem nada a ver com essa crise a qual ele atravessa.
IMACULADA: __ Como não? Ele lhe venera, passa horas naquele quarto, sentido seu perfume, nunca permitiu que eu, ou as crianças entrássemos lá.
TIETA: __ Ele se apega a minha imagem porque tivemos uma história bonita, eterna. Nos amaremos para sempre. Tu sempre soube disso. E foi na minha lembrança que ele buscou conforto nesse momento de dúvida.
IMACULADA: __ Ele disse que quer apenas a minha amizade.
TIETA: __ Isso é bom! As crianças precisam de vocês bem para que cresçam em segurança, sabendo que tem pais presentes com quem podem contar.
IMACULADA: __ A senhora acha que devo abrir mão do meu casamento?
TIETA: __ Teu casamento já acabou. Ficar arrastando correntes só vai lhe impedir de viver. Tu é jovem, talentosa, vai conhecer alguém. Aproveita o lançamento do teu novo livro e vai viajar, conhecer outras realidades.
Aracy chegou com os meninos. Ao se depararem com Tieta ficaram encabulados, mas logo Ricardinho disse:
RICARDINHO: __ A tia é mesmo bonita, como o pai sempre disse pra gente!
THIAGO: __ Sim. Ela é linda!
TIETA: __ Vocês são muito mais lindos pessoalmente do que nas fotos. Eu soube que são excelentes desenhistas. Que a ilustração do livro novo da mamãe é obra de vocês. Que tal fazerem um desenho para mim e depois vamos tomar um sorvete?
RICARDINHO: __ Boa ideia! A gente vai fazer lá no quarto e depois a senhora vê e diz qual ficou mais bonito. (Saem).
TIETA: __ Tá vendo? Teus filhos são lindos, inteligentes, você tem muito o que viver. Vou conversar com os dois a respeito da separação. Te garanto que vão até gostar de viverem em duas casas. Ricardo de cabeça fria, será um pai mais presente. E tu, sem se preocupar com o que perturba Ricardo e olhando mais para si, será uma mãe melhor, uma pessoa mais feliz.
No início dói, mas não há nada que o tempo não cure. Vou ver as crianças no quarto e conversar com elas. Depois vou leva-los para tomar um sorvete. Aproveita para colocar as ideias no lugar.
Durante o jantar os meninos contaram empolgadíssimos a tarde com a tia.
RICARDINHO: __ Ela é muito linda pai!
THIAGO: __ Convidou a gente para passar o fim de semana na praia e a mamãe deixou.
Ricardo olha para Imaculada.
IMACULADA: __ Sim, eu deixei. Porque quando vocês voltarem de Mangue Seco, nós já estaremos morando na nossa antiga casa. Só nós três, o papai vai ficar morando aqui.
THIAGO: __ A tia falou isso. Agora a gente vai ter duas casas e ainda passar as férias na casa dela em Mangue Seco. Não é o máximo?
RICARDO: __ Sim, é bacana! Agora vão escovar os dentes e fazer o dever de casa! Aposto que ficaram bobos com a tia e esqueceram da vida.
Quando os meninos saem, Imaculada diz a Ricardo que deixou que eles fossem para à casa de Tieta para fazer a mudança mais fácil. Mandou que Aracy fosse junto para ajudar tomar conta e gostaria muito que o pai os acompanhasse nesse fim de semana na praia. Assim facilitaria para ela.
Iriam voltar a morar na casa que ganharam de Tieta quando se casaram. Uma moça de Buraco Fundo a ajudaria nas tarefas domésticas e Aracy ficaria no casarão com Ricardo.
O fim de semana na praia foi pura diversão. Os meninos brincaram até cansar, Aracy e Cora colocaram as fofocas em dia.
A noite quando todos exaustos caíram em sono profundo, Tieta e Ricardo ficaram a sós.
RICARDO: __ Tu sempre surge para me libertar. Antes foi da batina, agora do casamento. Mas amanhã, tu vai embora?
TIETA: __ Pra que pensar no amanhã, cabrito? Temos uma noite inteira só para nós.
Saciada a paixão, aplacado o desejo latente, os corpos agora se amavam num ritmo mais lento. Era uma canção de amor.
A lua resolveu retardar sua partida, já era minguante, mesmo assim, no céu imponente junto às estrelas era público daquele espetáculo de amor.
As ondas do mar depois de tanto quebrarem com violência diante da janela aberta, já não eram mais euforia. No quarto, só amor!
Enquanto a lua permanecia de vigília, atrasando a entrada do sol, as ondas diminuíam seu vai e vem. Pois sabiam que agora tudo era amor...
Na cidade, nas casas vizinhas a de Tieta, os pescadores, todos estranhavam aquela noite sem fim. "Será que o sol perdeu a hora? "
A canção que entorpecia os habitantes nos últimos dias também se fazia presente, seus acordes no ar ora abaixavam o tom, ora tocavam mais fortes à medida que os dois se amavam.
Enquanto o dia não raiasse, Tieta não partiria, e agora tudo o que sentiam era amor.
A lua cúmplice dos amantes impedia a aproximação do sol. E tudo era amor naquela madrugada que se arrastava, naquela noite sem fim tudo foi amor.
Fim!
Nair Gevezier 15/07/2018.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Da época que fui feliz VI
Tieta despertou com o olhar espantado de Imaculada a observa-la. Olhou em volta e percebeu que Cardo e Aracy também estavam no quarto. Esta se surpreendeu ao ver o patrão sair da cozinha carregando uma bandeja, resolveu segui-lo.
TIETA: __ Bom dia! Vim ontem conversar com você, Imaculada, e ver as crianças, acabei ficando presa aqui por conta da chuva. Diz esboçando um belo sorriso.
IMACULADA: __ Nós também ficamos presos em Buraco Fundo por causa do temporal. - sem demonstrar qualquer emoção.
TIETA: __ A sorte que Ricardo trouxe pra cá todas roupas e objetos que eu tinha deixado na minha casa, para guarda-Los até que a reforma seja concluída.
ARACY:__ É verdade. Eu cuido da sua roupa, lavo, passo para não ficar com cheiro de guardado. E também cuido do quarto, tudo igualzinho quando a senhora morava aqui, D. Tieta.
Imaculada olha furiosa para Ricardo e Aracy. Ricardo continua imóvel segurando a bandeja sem saber o que fazer para sair daquela situação. Tieta o socorre.
TIETA: __ Você fez café pra mim. Ah, não precisava trazer no quarto.
Ricardo apoia a bandeja dizendo:
RICARDO: __ Tenho que me arrumar para o trabalho. Com licença!
Ao entrar no quarto onde dorme com Imaculada, desfaz a cama, ele deseja acabar seu casamento, mas não quer que a esposa descubra que foi traída.
No outro quarto Tieta e Imaculada estão sozinhas.
IMACULADA: __ A senhora voltou para ficar?
TIETA: __ Não. Eu vim porque estou preocupada com Ricardo. Na última que falei com ele por telefone senti que havia algo de errado. Por isso resolvi visitá-los.
IMACULADA: __ Conseguiu descobrir qual o motivo de tanta estranheza e tanto isolamento? Afinal vocês passaram duas noites inteiras juntos. Tiveram muito tempo para conversar.
TIETA: __ Eu quero muito conversar contigo também, mas agora você tá cansada. Vou embora e depois do almoço volto para termos uma conversa franca e madura. Pode ser?
IMACULADA: __ Essa hora estou sozinha em casa, as crianças estão na escola, Ricardo na prefeitura.
TIETA: __ Ótimo! Descanse, cabrita! O que eu tenho para te falar é sério, não dá pra ser depois de uma noite mal dormida, e muito menos sem tomar café da manhã.
Antes de sair Tieta passou pela sala de jantar onde Aracy servia café aos patrões.
TIETA: __ Obrigada pela hospitalidade, Cardo. Aracy, obrigada por cuidar tão bem das minhas coisas, até mais tarde Imaculada. Esse aqui volta comigo para São Paulo. - estende o lenço para Cardo.
Todos se despedem meio que intimidados. Tieta causa as diversas reações nas pessoas, ninguém fica indiferente à sua presença.
Mais tarde Imaculada vai até à prefeitura procurar Cardo para conversar com ele antes de ouvir o que Tieta tinha para lhe dizer. No seu íntimo talvez Ricardo tivesse algo a lhe revelar, mas estava propensa a acreditar em qualquer desculpa que este viesse a dar.
IMACULADA: __ A gente pode conversar?
RICARDO: __ Aqui não é local e nem hora pra conversa Imaculada.
IMACULADA: __Quando vai chegar a hora? Há tempos venho tentando essa conversa, mas você foge. Depois que sua tia chegou então...
RICARDO: __ Não envolva Tieta nisso. Ela não tem nada a ver com nossos problemas.
IMACULADA: __ Nossos problemas? Até onde eu sei, tu é que está com problema. E que estória é essa de manter o quarto da sua tia intocado?
RICARDO: __ Imaculada, eu gosto muito de ti, te admiro, foi bom te conhecer. Mas dividir a vida contigo, só como amigos. Eu não te amo como mulher.
IMACULADA: __ (Chorando) Então, por que casou comigo, teve dois filhos?
RICARDO: __ Eu me iludi achando que podia te amar, mas estou infeliz e te arrastando junto comigo.
IMACULADA: __ Você acha que D. Tieta vai ficar no Agreste pra sempre, casar contigo e te fazer feliz?
RICARDO: __ Independente de Tieta, quero me separar de você.
IMACULADA: __ E as crianças?
RICARDO: __ Eu vou deixar de viver com você como marido e mulher. Não vou deixar de ser pai dos meus filhos.
IMACULADA: __ Se morando na mesma casa você nunca vê os meninos. Em casas separadas esquecerá deles totalmente.
RICARDO: __ Eu me afastei dos meninos porque não estou bem comigo mesmo, mas estou disposto a reparar isso.
IMACULADA: __ Eu te faço mal, então?
RICARDO: __ Não foi isso que eu disse, mas sou obrigado a admitir que nosso casamento foi um erro.
A noite conversamos melhor. Agora vou até Buraco Fundo. Depois do jantar a gente senta e conversa sobre nossas vidas.
Imaculada temia o que iria ouvir de Tieta. Conhecia sua franqueza e determinação, não suportaria ouvi-la dizendo: " quero Ricardo de volta! " mas era impossível fugir dessa conversa.
Na sala Tieta a esperava, brincava com uma echarpe entre os dedos.
TIETA: __ Então, cabrita, preparada para nossa conversa?
Nair Gevezier 13/07/2018.
O casamento de Ricardo e Tieta
Santana inteira se agita
Com um casório que está
Para acontecer.
Mas são tia e sobrinho
"Como é que pode ser?"
Padre Mariano estranhou
Quando Ricardo lhe contou
Que com Tieta iria se casar.
Ele não acreditou, muito sério
Decretou: " essa cerimônia eu
Não posso realizar."
Mas se Deus já abençoou,
Quem era ele então, para
No caminho do amor querer
Se atravessar?
Quando o sino badalou
A cidade toda esperava
O povo reunido comprovou
Quando Perpétua entrou
E na direção do altar
O filho levava.
Uns minutos de silêncio
No peito de Ricardo uma aflição.
O povo se alterou
Quando a marcha nupcial tocou
Para Tieta gloriosa entrar.
Linda de vermelho surgiu
Noiva igual o Agreste
Jamais viu.
Plena e majestosa
Enquanto caminhava
Todo povo jura que ouviu
Um sino que tintilava.
Ninguém acreditava
Mas o padre celebrava
Uma união tão delicada
Se perguntavam:
"Onde esse mundo vai parar?"
Mas os noivos não se importavam
Com o que todos iriam falar.
Eles queriam acabar
Com a hipocrisia e seu amor
Para todos revelar.
Pois o destino estava traçado
Ambos estavam marcados
Na vida um do outro
Sempre iriam estar.
Nair Gevezier 13/07/2018.
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Desse jeito não!
Não vou entrar numa forma
Para ficar bem na sua forma
Vivo a vida como acho direito
Sem me preocupar com perfeito,
Ou imperfeito.
Se não aceita o meu jeito
Não tem jeito, se conforma.
Preto, branco, gordo, magro, gay,
Ou japonês.
Não importa o que tenham feito,
Ou não feito.
Serão apontados na rua uma,
Ou outra vez.
Por não estarem no conceito
De perfeito.
A patrulha do politicamente correto
Não descansa, sempre a nos perseguir
Uma palavra considerada inadequada,
É o suficiente para nos punir.
Não quero esse mundo,
O qual quem não tem argumentos
Para defender sua opinião
Invade mídias sociais com pornografia
Só para desacreditar seu "oponente "
E espalhar difamação.
Nair Gevezier 09/07/2018.
domingo, 8 de julho de 2018
Da época que fui feliz V
Tieta sozinha na sala observou a mobília. Tudo se consevara igual. Caminhou até o corredor, a porta do quarto onde dormiu com um homem numa cama pela primeira vez, e onde tantas noites felizes passou com Ricardo estava entreaberta. Entrou suavemente.
Ricardo estava lá. Absorto em seus pensamentos, sentado à penteadeira onde outrora admirava a tia em seus cuidados.
TIETA: __ Achei que tivesse perdido! Procurei por toda parte em São Paulo.
Ricardo desperta de seu devaneio e percebe Tieta atrás dele segurando um lenço de seda. Aquele lenço! Testemunha ocular de seus amores e amarguras desde menina. Que apesar dos pesares conseguiu conservar intacto ao longo da vida, e agora se encontrara em poder do sobrinho.
RICARDO: __ Eu ajudei Cora limpar sua casa depois da tempestade. Disse à ela que seus objetos pessoais ficariam comigo até a reforma. Ela concordou.
Tieta olha em volta e se depara com com vários pertences seus: um robe, outras echarpes e até potes de cremes, os quais Ricardo sabia que usava ele comprou, só para manter o ambiente como antes. Se abrisse o armário encontraria roupas, sapatos e camisolas.
TIETA: __ Não tem cabimento isso, Cardo!
RICARDO: __ Isso o que?
TIETA: __ Esse quarto, um espaço parado, onde você poderia dormir com sua esposa, servindo de museu.
RICARDO: __ Foi o jeito que eu encontrei de ter você perto de mim. Quando bateu o arrependimento de ter casado sem amor, quando minha posição política e o levantamento da cidade dependiam de uma perfeita união conjugal você estava longe... eu.
TIETA: __ Resolveu criar um museu em minha homenagem e viver do passado. Isso é uma sandice, um disparate! Você precisa viver!
RICARDO: __ "Minha vida é você. "
Tieta sente-se comovida com a resposta de Ricardo e antes que ela viesse com novos argumentos Ricardo lhe aplicou "um cheiro no cangote", aquele cheiro! o qual era autodidata, que por uns segundos a fez se render. Mas logo recobrara os sentidos.
TIETA: __ Eu vim conversar com Imaculada, ver as crianças. Minha chegada foi "um tanto intempestiva ". Não os vi direito.
RICARDO: __ Eles foram para a ONG. Só voltam mais tarde.
Tieta abre o armário pega uma peça de roupa.
TIETA: __ Essa camisola também ficou por aqui?
RICARDO: __ Adorava te ver desfilando pela casa com ela. Sempre me traz de volta a noite a qual, aqui nesse quarto, nessa cama você me ensinou o "ipicilone duplo. "Ricardo aperta um robe transparente entre os dedos.- Foi vestida com ela e com esse robe que você me deu um tapa na cara e disse que não queria me ver nunca mais na sua frente.
TIETA:__ E tu lembra de tudo isso? - diz num misto de surpresa e comoção ao ouvir os relatos do sobrinho.
RICARDO: __ Lembro de cada detalhe da noite mais importante da minha vida. Depois da briga, foi tudo tão maravilhoso! A primeira noite que que tu deixou eu dormir agarradinho contigo até amanhecer.
Ambos olham a cama com olhar de cumplicidade e nostalgia.
O calor começou a se intensificar, lá fora o céu escurecia antes do horário de costume. Parecia que vinha um temporal daqueles! Fato pouco comum no Agreste. Os moradores contam nos dedos os temporais que presenciaram. Chuvas fortes eram raras.
Tieta tenta manter distância considerável de Ricardo. A emoção do momento, o choque de está de volta aquele quarto como se ainda fosse seu, lhe traziam fortes recordações, e a presença do sobrinho mexia com ela.
TIETA: __ É melhor eu voltar outra hora. Hoje é dia de pleno funcionamento dessa bendita ONG. Passei na casa de Nora, nem ela, nem as crianças. Aqui a mesma coisa. Antes de voltar pra São Paulo, faço uma visita à Imaculada e aos teus filhos. Só os conheço por fotos.
RICARDO: __ Quando tu pretende voltar? - Ricardo sente-se transtornado com a ideia da partida de Tieta.
TIETA: __ Breve. Mas antes tenho que conhecer essa ONG, onde o mulherio do Agreste se reconstruiu. Aliás D. Aída vice-prefeita! Quem diria que essa cidade teria uma mulher num cargo tão importante? Eu sei que todo trabalho social em Buraco Fundo é projeto dela.
RICARDO: __ As mulheres do Agreste tem você como inspiração, foi você que transformou essa cidade.
Ricardo se aproxima de Tieta para beija-la, ela recua, mas um trovão faz com que ela o abrace.
A tempestade que se anuncia, traz à Tieta duras recordações. Lembranças da última noite que passou naquele quarto, marcada por uma terrível discussão com Perpétua. As duas irmãs disseram coisas imperdoáveis uma à outra. Cada insulto que uma gritava, cada ofensa de Perpétua, cada cobrança de Tieta era um raio que rebentava no céu.
Abraçada ao sobrinho parecia uma criança assustada, com medo dos trovões. Ricardo contemplava admirado essa imagem. A tempestade se intensifica.
RICARDO:__ Agora não tem como tu ir embora. Muito menos Imaculada voltar de Buraco Fundo tão cedo.
Tieta nada disse, só abraçou Ricardo como quem precisa de proteção. O perfume dela era o mesmo, o cheiro dos cabelos... os seios arfavam cada vez mais forte com o som da tempestade.
A chuva caía pesada, os dois se aproximam da cama, o lenço que até a hora do primeiro trovão estava nas mãos de Tieta escorregou, a camisola e o robe já estavam no chão.
Mais uma vez os corpos obedeceram à natureza e se amaram naquele leito, onde tantas vezes haviam se perdido de paixão.
Aquela cama, leito sagrado, santuário de amor e perdição significativa muito para os amantes.
Tão forte e tão intenso como o temporal lá fora, era o ritmo dos corpos se amando. Cada centímetro de pele um do outro eram antigos conhecidos, conversavam e se entendiam perfeitamente. Sabiam conjugar com maestria o verbo amar. Cada raio, cada trovão lá fora, era um êxtase no santuário do "ipicilone duplo ".
Quando a madrugada se despediu levou consigo a tempestade. Ao amanhecer Imaculada chegou trazendo com a ajuda de Aracy, os meninos que ainda dormiam.
Ao acomodarem as crianças, Aracy seguiu para a cozinha, Imaculada estranhou "o quarto proibido " está com a porta entreaberta e foi conferir, tentar finalmente descobrir o que fazia o marido passar horas a fio lá dentro. Andando sorrateira para não espantar a lebre, levou um susto, ao ver Tieta dormindo tranquila, parecia um anjo.
Ela usava a camisola, pedido de Ricardo entre um intervalo e outro da noitada.
Chocada com o que vê Imaculada nem se deu conta que Ricardo entrava trazendo uma bandeja de café.
A cama totalmente desfeita roupas espalhadas pelo chão... o lenço de seda ao lado de Tieta, todo esse cenário formava uma cena de terror aos olhos de Imaculada.
Nair Gevezier 08/07/2018.
sexta-feira, 6 de julho de 2018
Da época que fui feliz IV
A lua estava mais distante, no horizonte se preparava para descansar. Era alta madrugada quando finalmente os corpos se separaram.
Naquela noite tudo era permitido. Com o raiar do dia, os amantes não saberiam qual seria seu destino. Por isso, Tieta permitiu que Ricardo amanhecesse o dia ao seu lado, no quarto que um dia foi sonhado para os dois. Acharam melhor deixar a janela aberta, para serem acordados com os primeiros raios de sol.
A manhã se anunciou, os corpos mesmo exaustos de tanto amor e saudade, uniram-se novamente. Amaram-se com a luz da manhã e ao som das ondas do mar. Estas quebravam num ritmo tenso e intenso, como a música que todos, no seu íntimo, ouviram na noite anterior. Uma canção tão forte que cada acorde vibrava os nervos, aquecia o sangue e fazia corrê-lo mais rápido.
Um pescador que passava comentou:
PESCADOR: __ O mar hoje está agitado, mas não parece revolta, parece que Iemanjá está dando uma festança!
Quando os corpos se afastaram outra vez, o mar era só calmaria. A canção agora ia longe, fazendo coro distante para a despedida do casal.
TIETA: __ Agora você precisa ir embora.
RICARDO: __ E a gente como fica? Como vai ser depois?
TIETA: __ Continua o mesmo cabrito desarvorado de antes. Não pensa no que pode acontecer depois. O que importa é aqui, agora...
Quando saíram do quarto Cora já havia preparado o café, a mesa estava posta.
TIETA: __ Bom dia, Cora! Pra que tanta comida? "Tô sem fome nenhuma !"
CORA:__ Por isso mesmo, achei melhor fazer um bolo e trazer pão da cidade. Olhando para Ricardo diz:
CORA:__ Encontrei Aracy comprando pão. Ela disse que sua mulher estava preocupada com o senhor, achando que tinha dormido na prefeitura.
TIETA: __ Cardo ficou me fazendo companhia, ficamos conversando, quando nos demos conta, era tarde demais. Não tinha como atravessar o rio.
RICARDO: __ A lua estava tão bonita, que perdi a noção do tempo. Quando dei por mim era madrugada.
Antes de ir para a prefeitura, Ricardo passou em casa para tomar um banho e dar uma satisfação à Imaculada. Não queria encontra-la depois daquela noite, mas era inevitável.
Muito aborrecida Imaculada o esperava. Não desfez a birra depois da explicação do marido.
RICARDO: __ Fazia muito tempo que eu não via Tieta, você sabe do afeto que tenho por ela, toda gratidão que sinto. Tu bem sabe se não fosse ela, eu não seria prefeito, Ascânio jamais seria deputado e Santana do Agreste estaria acabada. Nunca mais se reergueria da areia. Mesmo longe, foi ela quem levantou essa cidade, ajudando com dinheiro e prestígio entre os políticos.
IMACULADA: __ Então, quer dizer que agora, enquanto sua tia estiver na cidade, ao invés de passar as noites na prefeitura, o senhor vai passar as noites na praia?
RICARDO: __ Eu fiquei admirando a lua, perdi a noção do tempo.
IMACULADA: __ Eu vou cuidar da minha vida. Vou para Buraco Fundo. É dia de "contação de histórias ". Se quiser ver os seus filhos, almoce em casa! Porque depois Aracy vai levá-los para a ONG. Eles adoram ouvir histórias, participar das rodas de conversa.
"Seria tão bom se Imaculada fosse abduzida e não voltasse nunca mais. De repente ficasse com ódio dele e decidisse ir embora." Esses pensamentos passavam pela cabeça de Ricardo enquanto tentava descansar. Mandou avisar Dona Aída, sua vice-prefeita, para assumir as funções na prefeitura aquele dia.
A imagem de Tieta se misturava a dos filhos. Agora era diferente! Tinha dois filhos. Mas se Imaculada fosse embora, Tieta podia assumir Ricardinho e Thiago como se fossem seus. Tieta era boa, generosa e não deixaria os sobrinhos desamparados.
Ao mesmo tempo lembrava que não sabia se a tia tinha voltado de vez, ou apenas a passeio. Será que os dois teriam novo encontro?
Mesmo cansado, Ricardo almoçou com as crianças.
Quando Aracy saía para buscar os meninos na escola, Tieta chegava à casa que fora de Perpétua.
TIETA: __ Eu vim falar com Imaculada, ver as crianças.
ARACY: __ Eu vou agora buscar os meninos na escola e levá-los para Buraco Fundo. Hoje é dia de Imaculada contar histórias para a criançada. Mas Cardo está aí. Pode entrar D. Tieta.
Nair Gevezier 06/07/2018.
domingo, 17 de junho de 2018
Artes e manhãs do destino
Artimanha do destino
Menino travesso, que só faz
O que bem quer.
Atormentando dia e noite
O pobre padreco
Com uma tentação em
Forma de mulher.
Ele rezava muito
No meio da oração,
Lá estava ela.
Se perdia nas contas do rosário
Embriagado pelo perfume dela.
Ela era pura tentação
Que Deus, ou o Diabo
Na sua vida fez chegar.
Ele lutava contra a carne,
Mas não adiantava
No milho se ajoelhar.
Ela sabia seu poder
Por isso o provocava.
Foi pega de surpresa
Se apaixonando
Por quem por ela
Se apaixonava.
Mas novamente o destino
Esse menino danado e travesso
Separou o que ele próprio uniu
Deixando tudo pelo avesso.
E até hoje existe um vazio
Um enorme espaço a ser preenchido.
Mas esse amor sempre ficará vivo
No imaginário coletivo.
Nair Gevezier 17/06/2018.
sábado, 16 de junho de 2018
Da época que fui feliz III
Tieta ficou eufórica ao adentrar a sala. Não cabia em si de tanto contentamento; batia palmas, pulava, quis ver cômodo por cômodo do imóvel.
Seu quarto era exatamente como Ricardo havia descrito certa vez: "teu quarto é enorme, dá pra botar uma cama imensa lá." Tamanha era a empolgação de Tieta, que deu um beijo de agradecimento no sobrinho.
TIETA: __ Obrigada Cardo. A casa ficou perfeita, linda! Graças a tua dedicação.
Ricardo foi pego de surpresa com aquele beijo eufórico, e como da primeira vez que teve a face beijada pela tia, ficou totalmente bobo, sem reação.
O sorriso de Tieta era a obra mais linda criada por Deus! E naquele momento era ele, Ricardo quem proporcionara aquele sorriso. A luz que irradiava de seus olhos agora, também era responsabilidade sua. Tudo nela era perfeição. Alegre, espevitada, parecia criança solta em parque de diversão.
No mesmo instante que pulava de alegria, saiu correndo pela casa gritando:
TIETA: __ Coooooora!
CORA:__ Oh, Dona Tieta, a senhora nem pra avisar que vinha.
TIETA: __ E perder a chance de te pegar no flagra, grudada na televisão? Nem pensar!
CORA:__ A senhora sabe que eu só vejo novela pra falar mal. Falando em novela essa última das nove, só Jesus na causa! O elenco era bom, mas o texto... vergonha alheia, Dona Tieta!
Tieta se divertia ao ouvir as críticas da empregada, abraçou- a com afeto, Cora era a criatura mais abusada, porém Tieta gostava disso.
TIETA: __ Eu trouxe uma lembrancinha pra ti, mas amanhã lhe dou. Agora vai pra casa descansar e não fique vendo televisão até tarde!
CORA:__ O jantar está pronto. A senhora não quer que eu lhe sirva?
TIETA:__ Não. "Tô sem fome nenhuma!" (SILVA 1989/1990). Depois como alguma coisa. Agora vá!
CORA: __ Sim senhora! Até amanhã!
Ricardo e Tieta ficaram a sós.
RICARDO: __ Você deve está louca pra descansar. Vou embora também.
TIETA: __ Espere! Ainda não tem agradeci o suficiente, se não fosse o teu empenho, depois de tudo o que essa cidade sofreu, essa casa jamais estaria de pé, e maravilhosa desse jeito!
RICARDO: __ Do jeito que a gente sonhou...
TIETA: __ E também tem outro assunto pra falar contigo. Mandei Cora embora por isso.
Entrando novamente no quarto, os dois trocaram um olhar de cumplicidade, aquele olhar que não precisava de uma só palavra para que ambos entendesse o que queriam dizer um ao outro.
RICARDO: __ Por que tu voltou assim sem avisar, de surpresa?
TIETA: __ Não gostou da surpresa, Cabrito?
RICARDO: __Claro que gostei!
TIETA: __ Depois daquele teu telefonema de madrugada, fiquei pensando: "tá acontecendo alguma coisa com aquele cabrito! "... aí voltei.
RICARDO: __ E por que tu achou que tinha algo de errado comigo?
TIETA:__ Quando cheguei aqui tive certeza. Qual o teu problema, Cardo?
RICARDO: __Eu não tenho problema nenhum.
TIETA: __ Claro que você tá com problema, e esse danado desse problema tá afetando teu casamento com Imaculada.
RICARDO: __ Ah, sim! Então tu voltou pra salvar o casamento que você arranjou pra mim. Tá com medo de me ver solto de novo, invadindo outros cercados?
TIETA: __ Mas que sandice é essa "de casamento que arranjei pra ti?" Eu por acaso te obriguei a casar?
RICARDO: __ Me jogou pra cima dela sim. Eu só me casei pra satisfazer uma vontade sua, "pra te ver feliz. " Agora sou eu quem não estou feliz, nem ela.
TIETA: __ Casou pra me fazer feliz? Essa é boa!
RICARDO: __ Você sabe que a única mulher que amei na vida foi você.
TIETA: __ Eu não vou ficar aqui ouvindo desaforos de sobrinho mal criado, Cabritinho desmamado que não sabe o quer da vida.
Tieta vira às costas para Ricardo e sai em direção à praia, ele vai atrás.
Ela caminha furiosa, mas de repente se depara com a lua. Aquela lua que só existe em Mangue Seco. Majestosa, gloriosa, totalmente segura do seu papel de iluminar a noite e apadrinhar os namorados.
Ela para. Numa fração de segundo toda raiva da discussão com Ricardo se dissolve. "Tudo se torna tão pequeno ".
Aquela lua lhe trás muitas lembranças. Lembranças da pastora de cabras, menina inconsequente que corria livre pelas dunas, da mulher poderosa que deu a volta por cima, voltando à sua terra 20 anos depois de ter sido expulsa, da vida que teve depois que partiu do Agreste de cabeça erguida, em paz consigo mesma, mais leve, sem rancor e sem mágoa...
Ricardo se aproxima, mais uma vez teve um dejavú, aliás todo o seu dia foi um "de volta ao passado ". Impressionante! Só a tia colocar o pé na cidade, para ele voltar a ser "um seminarista bobo".
O olhar de Tieta era tão apaixonado para a lua, que Ricardo sentiu ciúmes, decidiu se afastar, mas ela o reteve.
TIETA: __ Fique! Divida esse momento comigo, essa lua linda que só existe aqui!
Sentaram-se na areia, ela apoiou a cabeça em seu ombro, sem tirar os olhos da lua, ele pode sentir o toque suave de seus cabelos, seu perfume, as mãos dela segurando as suas de novo...
A lua cada vez se aproximava mais do casal, sufocando-os. Como se intimidasse os dois.
Aqueles corpos que se conheciam tão bem, que automaticamente se impeliam com voracidade se uniram num beijo.
Nenhum dos dois tentou fugir, como num ritual, Ricardo afastou o lenço que cobria o decote de Tieta e o amor aconteceu. Uma explosão comparada só à de uma bomba atômica. Foi como se dois corpos tivessem sido arrebatados de um sono profundo e voltado à vida com todo fervor!
Ao mesmo tempo na cidade, o silêncio da noite era preenchido por um ritmo latente. Como se todos escutassem uma canção tensa, intensa que invadia a alma, despertando todos os sentidos.
Nas dunas de Mangue Seco, o amor apresentava um número orquestral, onde os músicos afinados sabiam cada nota a ser executada. E a lua, além de refletor, junto com o mar, que rebentava as ondas no mesmo ritmo casal, eram o público do espetáculo no palco de areia.
Nair Gevezier 14/06/2018.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
Da época que fui feliz II
Quando o povo de Sant'Ana do Agreste reconheceu Tieta na saída do helicóptero, foi um "Deus nos acuda"! Carmô que havia deixado a agência dos Correios por conta da novidade correu para abraçar a amiga querida.
Timóteo e Elisa também se aproximaram, Ricardo ainda continuava em transe, como se estivesse diante de uma aparição. "Ela está ainda mais linda! " pensou o rapaz.
Conversa vai, conversa vem, Tieta foi informada que sua casa na cidade passava por uma reforma.
CARMÔ:_ Depois da tempestade, todas as casas tiveram que ser praticamente refeitas, a sua foi a menos atingida, por isso ficou por último. Além do mais, Amintas e Ricardo se dedicaram à construção da casa de Mangue Seco, (que ficou uma belezura)! Só agora Amintas pode fazer os reparos na casa da cidade.
ELISA:__ Como tu veio sem avisar, pode ficar lá em casa, até Cora preparar a casa da praia pra te receber.
RICARDO: __ Ou lá em casa, vai ser uma honra te hospedar de novo!
Tieta sentiu uma emoção inesperada ao ouvir a voz do sobrinho, sentiu um tremor nas pernas, seu coração bateu acelerado e, não conseguiu pronunciar palavra sequer ao cruzar seus olhos aos de Ricardo.
"Frente a frente, tia e sobrinho" (Amado, 1977, p. 188), são envolvidos por um encantamento que por alguns instantes parecia não haver ninguém mais no local. Apenas os dois e a brisa que trazia de longe o cheiro da maresia e se misturava ao perfume de Tieta. É Leonora quem vem trazê-los de volta ao mundo.
NORA:__ O que não falta é lugar pra Mãezinha ficar. Se quiser, vem comigo!
De volta ao solo do Agreste, Tieta pensou em aceitar o a oferta de Ricardo, mas percebeu o olhar de birra de Imaculada e optou pela casa de Leonora.
TIETA: __ Passo o dia na casa de Nora, talvez almoce com Elisa e Timóteo, enquanto isso alguém avisa Cora que cheguei, e que à noite vou para Mangue Seco. Hoje é noite de lua, vai ser uma maravilha apreciar a lua na minha casa nova, depois de tanto tempo!
Um comboio partiu em direção à casa de Leonora, todos queriam ajudar com as malas e olhar para Tieta, ver de perto aquela mulher incrível, que parecia não ser real, de tão linda!
Ricardo ficou parado, como que quisesse aspirar o último traço de perfume que a tia deixara no ar.
Nesse tempo Ascânio tinha sido eleito deputado, Ricardo era prefeito da cidade, mas ultimamente não conseguia se concentrar nas necessidades do povo. Sentia que sua vida era só uma repetição de dias iguais, gostava da companhia de Imaculada, amava os filhos, mas sentia que algo lhe faltava.
Volta e meia, se pegava lembrando de um beijo furtado de Tieta, correndo risco de serem pegos por alguém. Ou de uma briga causada por seu ciúme desmedido, da época que acreditava que a tia era uma Santa, mas Santa mesmo era sua inocência em crer em tal coisa.
Na casa de Leonora, no quarto de hóspedes, Carmô quis saber de Tieta o motivo de sua volta repentina.
TIETA: __ Hoje de madrugada Cardo me ligou da prefeitura. Eu estranhei a hora e o fato dele estar na prefeitura. Acho que está acontecendo alguma coisa com aquele cabrito.
CARMÔ: __ Ele anda meio estranho mesmo. Imaculada reclama que ele chega tarde, sai cedo, quase nem fala com as crianças... depois de uma pausa Carmô revelou à Tieta sobre o "quarto proibido"!
TIETA: __ Que estória é essa de "quarto proibido ", mulher?
CARMÔ: __ O quarto de Perpétua. Ricardo não deixa ninguém entrar lá, a não ser Aracy pra limpar, assim mesmo com supervisão dele. E às vezes fica horas trancado lá.
Ao ouvir sobre o quarto de Perpétua, Tieta teve doces lembranças dos bons momentos que ali passou. E confirmou sua suspeita: Ricardo estava com problemas.
TIETA: __ O que será que está passando na cabeça do meu ex- padreco? Seja o que for, vou descobrir.
O dia passou muito rápido, entre uma visita e outra, entre um assunto e outro Pirica veio buscar as malas de Tieta para o ancoradouro. Já anoitecia e logo a lua iria mostrar sua face.
No ancoradouro a Cabrona teve uma surpresa; Ricardo a esperava para conduzi-la até Mangue Seco e lhe apresentar a casa. Afinal aquela casa era um projeto dos dois, queria ver os olhos de Tieta ao ver a casa pronta.
Nair Gevezier 13/06/2018.
domingo, 3 de junho de 2018
Da época que fui feliz
Toda noite era a mesma coisa. Inventava algum projeto para analisar, o qual não se concretizava nunca, e cada dia saia mais tarde da prefeitura.
Em casa a esposa Imaculada reclamava:
IMACULADA: _ Essa semana você não deu se quer "boa noite! " às crianças. Elas até tentam, mas não aguentam esperar por você. Aliás nem eu. Jantei sozinha de novo. Se quiser tem um prato no forno.
Aquela noite sem se dar conta, Ricardo tinha entrado madrugada a dentro, depois de passar horas absorto diante de papéis que nada queriam dizer. Resolveu fechar a prefeitura e ir para casa. Antes de sair entrou na sala onde outrora funcionara o escritório da Brastânio, a sala do telefone. Seguindo um impulso ligou para um número de São Paulo, número que sabia de cor, de tanto olhar para o cartão e não ter coragem de ligar.
TIETA:__ Alô!
RICARDO: __Tieta?
TIETA:_ Cardo? (Pausa) aconteceu alguma coisa? Tu me ligando uma hora dessas!
RICARDO: __Desculpa! Eu estava saindo da prefeitura, passei pelo telefone, e me deu uma vontade danada de ligar pra ti.
TIETA:__ Na prefeitura, até essa hora?
RICARDO: __Eu estava estudando um projeto e perdi a noção do tempo.
TIETA: __E Imaculada e as crianças, como estão?
RICARDO:__ Bem.
TIETA: __Fico feliz em escutar sua voz. Sinal que você não esqueceu sua tia.
RICARDO __Eu jamais vou te esquecer.
TIETA: __ É melhor tu ir pra casa agora, tua mulher deve está preocupada.
RICARDO: __Boa noite!
TIETA: __Boa noite!
Em São Paulo Tieta percebeu que alguma coisa acontecia ao sobrinho. Ela o conhecia bem demais para saber que havia algo de errado. Querendo ou não, aquele cabrito fazia parte dela, de um jeito, ou de outro estaca marcado em sua vida para sempre.
Depois do casamento do irmão caçula, Ricardo mudou-se com Imaculada para o casarão de Perpétua. Porém, se recusou a ficar no quarto que fora de sua mãe.
Aquele cômodo era uma espécie de "quarto proibido ", onde só ele entrava e Aracy, para fazer a limpeza, sem retirar nada do lugar.
Na casa onde Tieta passou seus últimos dias no Agreste, tinha conseguido alguns objetos pessoais deixados pela tia. Um resto de perfume num vidro, um lenço de seda, um robe, aquele robe que tantas vezes o fez ajoelhar no milho.
Imaculada dormia, aproveitou para entrar no "santuário de Tieta", aquele quarto onde tinha aprendido tantas coisas. Naquela cama descobriu os prazeres do sexo, as delícias do amor, o sabor de uma reconciliação após uma briga temperada por ciúmes.
Na manhã seguinte Imaculada disse que sentiu sua falta durante à noite.
IMACULADA: __Dessa forma fica difícil manter um casamento. Você mal aparece em casa, e quando vem chega tarde, dorme em outro quarto.
RICARDO: __Não queria lhe incomodar. Perdi a noção do tempo, cheguei tarde demais e achei melhor dormir no outro quarto.
IMACULADA: __Aquele quarto, onde ninguém entra?
A discussão foi interrompida por um barulho estranho, um barulho que cada vez se aproximava mais. Aracy veio correndo contar a novidade.
ARACY: __Gente, tá pousando um helicóptero na cidade.
Saíram todos para ver do que se tratava, ao terminar seu pouso a aeronave se abre, o piloto desce, em seguida um par de sapatos vermelhos aparecem sustentando uma dama igualmente vestida.
Ricardo não precisava ver o rosto da tal mulher para saber de quem se tratava.
Sim era ela: sua primeira e única grande paixão, seu amor eterno, sua outra metade que voltava.
Preocupada com o telefonema fora de hora e sem propósito de Ricardo, Tieta resolveu voltar ao Agreste, e sua chegada não podia ser diferente. Tinha que ser em grande estilo.
Nair Gevezier 03/06/2018.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
Cabritinha de Mãezinha
Nos conhecemos no meio
De um fogo cruzado
Tinha começado uma guerra
Por conta de um amor proibido
Ambas escolhemos o mesmo lado.
Eu atirava para todos os lados
Tentando defender minha opinião
Percebi no tiroteio uma aliada
Que também vibrava pela mesma
Paixão.
Ela é a mãe, é esposa, amiga...
Cabeça aberta e sem nenhum preconceito.
Cabritinha desarvorada de Mãezinha
Companheira de torcida
Amiga do peito.
Nair Gevezier 01/06/2018.
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Intensamente
Ainda pequenina,
Encantada pela magia do palhaço
Com o circo quis fugir.
Foi apanhada no flagra,
Mas isso não a fez do seu sonho desistir.
Aulas de piano,
Os pais queriam que fizesse
Rebelde por natureza disse:
que só Faria, se balé também pudesse.
Da sapatilha de ponta
Para um salto bem alto.
Assim deu os primeiros passos
Para glória em cima do palco.
Bailarina, teatro, vedete...
Com muito esforço e dedicação
Foi se construindo
Cada trabalho um desafio, uma conquista.
A estrela ia surgindo!
E seu esforço foi sendo reconhecido
Isso era tão Bom!
Estrelou sua primeira peça:
As inocentes do Leblon.
Muito talento e disciplina
Nas curvas de uma bela morena.
Conquistou seu lugar ao sol.
E nas telas do cinema.
Com a sétima arte
Nos mostrou o Brasil de fato
Como ele é.
Pobreza, fome, descasos
Testemunhados pelos olhos
Da linda Salomé.
Ela foi, sem nunca ter sido.
Culpa da censura, vergonha nacional.
Mas isso não foi um empecilho
Para que divasse em Pecado Capital.
Rebelde, polêmica, destemida
Vai da madame à mulher do Nordeste.
Parou o país com ousadia e beleza
Dando vida à Tieta do Agreste.
Carioca de Copacabana
Tem orgulho de ser conhecida
Como atriz popular.
Não há dúvida de que
Ela veio ao mundo para brilhar.
Guerreira, mãe, mulher, atriz...
Quebrou barreiras, derrubou preconceitos
Não mediu esforços para ser feliz.
Duas vidas? Não. Muito mais...
Lucinha, Lygia, Leonor, Leda Maria
Grandes mulheres, vividas por
Uma grande atriz
Conhecida como Betty Faria.
Nair Gevezier 07/05/2018.
domingo, 8 de abril de 2018
Lembranças
Lembro de ti o tempo inteiro
Desde que acordo, até quando me deito
O tempo passou, e ainda sinto teu cheiro
Trago comigo, um pedaço de ti no meu peito.
Foi pra sempre, eterno
Não tem outro jeito
Ainda sinto tua pele na minha
Teu calor ainda aquece meu leito.
A saudade que sinto de ti
Não é tanta, à noite quando em outros braços me perco.
É Sim, quando amanhece,
Acordo e percebo que não é nos teus braços que adormeço.
Nair Gevezier 07/04/2018.
sexta-feira, 9 de março de 2018
Quando te vi
A vida passou a ter sentido
Até você aparecer
Foi como se eu nunca tivesse existido.
Tranquilamente abri mão
Do meu sossego e sensatez
Senti uma emoção forte, louca...
Como quem ver o mar
Pela primeira vez.
Não me importava mais o sol, o mar...
Só pensava numa maneira
De estar dentro do teu olhar.
Temi as penas do inferno.
Besteira! Logo percebi
Que longe de ti, minha vida seria
uma longa e fria noite de inverno.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Destino
no início por brincadeira
Tornou-se uma grande paixão.
na minha vida, a mais verdadeira.
Quando nos teus olhos via medo
e com isso me divertia.
Não percebia que me apaixonava
no instante que te seduzia.
Inutilmente tentei fugir
da paixão que me invadia.
Por defesa, fingia-me de forte
acreditando que te protegia.
Resolvi obedecer a natureza
é sempre o melhor a fazer.
Lutar contra o destino é inútil
só tristezas pode trazer.
Nosso amor vai ser eterno
nada vai mudar
Não posso lutar contra o que sinto
Agora como antes:
faço o que a natureza mandar.
Nair Gevezier 23/02/2018.
domingo, 18 de fevereiro de 2018
Novo Apelo
Sentindo medo de pecar
Desesperado de desejo
querendo a tua pele tocar.
Não adiantava rezar
Nas minhas orações, você aparecia,
Ao fazer um pedido para a virgem no altar
Era os seus olhos que eu via.
Contigo conheci o amor
seus tormentos e delícias.
Enfrentaria o inferno se preciso
só pra ter de novo suas carícias.
Se pudesse voltar no tempo
não mudaria nada do que aconteceu.
Viveria tudo de novo
queria para sempre ser seu.
A melhor parte de mim
é a que dividi contigo.
Peço agora, como no início:
não vá embora, fique comigo!
Nair Gevezier 18/02/2018.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
De Tieta para Ricardo
e a mim as entregasse
ficaria muito honrada
Mas talvez as recusasse.
Tu não conhecias a vida
aprendeu a amar comigo.
Não poderia estar preso a mim
quando em outro seio encontrasse abrigo.
Lutei contra esse sentimento
que dia e noite nos consumia.
Não podia te marcar para sempre
por isso te protegia.
Uma paixão assim, desmedida
julgava-me incapaz de sentir.
Sentia medo e estava feliz,
mas não podia te ferir.
Mesmo sendo proibido
por ti meu coração bateu.
Tudo que queria era ser sua
e sei que querias ser meu.
Se mil vidas tivesses
em todas elas te seduziria.
Só pra ter de novo o prazer
Da tua pele tocando a minha.
Nair Gevezier 16/02/2018.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Cartas de amor: de Ricardo para Tieta
A ti as entregaria
Ao te ver tive certeza
que meu destino a ti pertencia.
Nos teus olhos eu via o mar
Teu sorriso já me conduzia
Eu buscava entre as santas
uma que contigo se parecia.
Um sentimento inocente.
Juro!
Tinha medo de lhe ofender
precisava ser puro.
Mas meus pensamentos me traiam
tu já estavas na minha alma
Seu olhar me envolvia
nada mais me trazia calma.
E assim cheio de medo,
teu perfume me entorpecia
Nos teus seios queria abrigo
Um misto de mar revolto e calmaria.
Naquele instante decisivo
"quem eu era ficou pra trás".
Tu eras minha perdição
Eu cada vez te querendo mais.
Se mil vidas tivesse
por ti queria morrer.
Nos teus seios ter abrigo
e nos teus braços renascer,
Nair Gevezier 14/02/2018.