Sempre é tempo de recomeçar

Muitas vezes achamos que tudo está perdido, o sonho acabou e nada mais resta. Porém esquecemos que estamos vivos e por mais que as coisas estejam ruins há sempre um recomeço.
Enquanto houver oxigênio haverá problrmas, e é um bom sinal, pois nos problemas estão os maiores desafios e estes nos fazem sentimos vivos.

sábado, 16 de junho de 2018

Da época que fui feliz III

Tieta ficou eufórica ao adentrar a sala. Não cabia em si de tanto contentamento;  batia palmas,  pulava, quis ver cômodo por cômodo do imóvel.
Seu quarto era exatamente como Ricardo havia descrito certa vez: "teu quarto é enorme, dá pra botar uma cama imensa lá." Tamanha era a empolgação de Tieta,  que deu um beijo de agradecimento no sobrinho.
TIETA: __ Obrigada Cardo. A casa ficou perfeita,  linda! Graças a tua dedicação.
Ricardo foi pego de surpresa com aquele beijo eufórico,  e como da primeira vez que teve a face beijada pela tia, ficou totalmente bobo, sem reação.
O sorriso de Tieta era a obra mais linda criada por Deus! E naquele momento era ele, Ricardo quem proporcionara aquele sorriso. A luz que irradiava de seus olhos agora, também era responsabilidade sua. Tudo nela era perfeição. Alegre, espevitada, parecia criança solta em parque de diversão.
No mesmo instante que pulava de alegria,  saiu correndo pela casa gritando:
TIETA: __ Coooooora!
CORA:__ Oh, Dona Tieta, a senhora  nem pra avisar que vinha.
TIETA: __ E perder a chance de te pegar no flagra, grudada na televisão?  Nem pensar!
CORA:__ A senhora sabe que eu só vejo novela pra falar mal. Falando em novela essa última das nove, só Jesus na causa! O elenco era bom, mas o texto... vergonha alheia, Dona Tieta!
Tieta se divertia ao ouvir as críticas da empregada,  abraçou- a com afeto,  Cora era a criatura mais abusada, porém Tieta gostava disso.
TIETA: __ Eu trouxe uma lembrancinha pra ti, mas amanhã lhe dou. Agora vai pra casa descansar e não fique vendo televisão até tarde!
CORA:__ O jantar está pronto.  A senhora não quer que eu lhe sirva?
TIETA:__ Não. "Tô sem fome nenhuma!" (SILVA 1989/1990). Depois como alguma coisa.  Agora vá!
CORA: __ Sim senhora!  Até amanhã!
Ricardo e Tieta ficaram a sós.
RICARDO: __ Você deve está louca pra descansar. Vou embora também.
TIETA: __ Espere! Ainda não tem agradeci o suficiente, se  não fosse o teu empenho,  depois de tudo o que essa cidade sofreu, essa casa jamais estaria de pé,  e maravilhosa desse jeito!
RICARDO: __  Do jeito que a gente sonhou...
TIETA: __ E também tem outro assunto pra falar contigo. Mandei Cora embora por isso.
Entrando novamente no quarto,  os dois trocaram um olhar de cumplicidade,  aquele olhar que não precisava de uma só palavra para que ambos entendesse o que queriam dizer um ao outro.
RICARDO: __ Por que tu voltou assim sem avisar, de surpresa?
TIETA: __ Não gostou da surpresa, Cabrito?
RICARDO: __Claro que gostei!
TIETA:  __ Depois daquele teu telefonema de madrugada,  fiquei pensando: "tá acontecendo alguma coisa com aquele cabrito! "... aí voltei.
RICARDO: __ E por que tu achou que tinha algo de errado comigo?
TIETA:__ Quando cheguei aqui tive certeza. Qual o teu problema, Cardo?
RICARDO: __Eu não tenho problema nenhum.
TIETA: __ Claro que você tá com problema,  e esse danado desse problema tá afetando teu casamento com Imaculada.
RICARDO: __ Ah, sim! Então tu voltou pra salvar o casamento que você arranjou pra mim. Tá com medo de me ver solto de novo,  invadindo outros cercados?
TIETA: __ Mas que sandice é essa "de casamento que arranjei pra ti?" Eu por acaso te obriguei a casar?
RICARDO: __ Me jogou pra cima dela sim. Eu só me casei pra satisfazer uma vontade sua, "pra te ver feliz. " Agora sou eu quem não estou feliz,  nem ela.
TIETA: __ Casou pra me fazer feliz?  Essa é boa!
RICARDO: __ Você sabe que a única mulher que amei na vida foi você.
TIETA:  __ Eu não vou ficar aqui ouvindo desaforos de sobrinho mal criado,  Cabritinho desmamado que não sabe o quer da vida.
Tieta vira às costas para Ricardo e sai em direção à praia,  ele vai atrás. 
Ela caminha furiosa, mas de repente se depara com a lua. Aquela lua que só existe em Mangue Seco.  Majestosa,  gloriosa, totalmente segura do seu papel de iluminar a noite e apadrinhar os namorados.
Ela para.  Numa fração de segundo toda raiva da discussão com Ricardo se dissolve.  "Tudo se torna tão pequeno ".
Aquela lua lhe trás muitas lembranças.  Lembranças da pastora de cabras, menina inconsequente que corria livre pelas dunas, da mulher poderosa que deu a volta por cima, voltando à sua terra 20 anos depois de ter sido expulsa, da vida que teve depois que partiu do Agreste de cabeça erguida, em paz consigo mesma, mais leve, sem rancor e sem mágoa...
Ricardo se aproxima, mais uma vez teve um dejavú, aliás todo o seu dia foi um "de volta ao passado ". Impressionante!  Só a tia colocar o pé na cidade, para ele voltar a ser "um seminarista bobo".
O olhar de Tieta era tão apaixonado para a lua, que Ricardo sentiu ciúmes,  decidiu se afastar, mas ela o reteve.
TIETA: __ Fique!  Divida esse momento comigo, essa lua linda que só existe aqui!
Sentaram-se na areia, ela apoiou a cabeça em seu ombro, sem tirar os olhos da lua, ele pode sentir o toque suave de seus cabelos,  seu perfume,  as mãos dela segurando as suas de novo...
A lua cada vez se aproximava mais do casal, sufocando-os. Como se intimidasse os dois.
Aqueles corpos que se conheciam tão bem, que automaticamente se impeliam com voracidade se uniram num beijo.
Nenhum dos dois tentou fugir,  como num ritual, Ricardo afastou o lenço que cobria o decote de Tieta e o amor aconteceu. Uma explosão comparada só à de uma bomba atômica.  Foi como se dois corpos tivessem sido arrebatados de um sono profundo e voltado à vida com todo fervor!
Ao mesmo tempo na cidade, o silêncio da noite era preenchido por um ritmo latente.  Como se todos escutassem uma canção tensa, intensa que invadia a alma, despertando todos os sentidos.
Nas dunas de Mangue Seco,  o amor apresentava um número orquestral,  onde os músicos afinados sabiam cada nota a ser executada. E a lua,  além de refletor, junto com o mar,  que rebentava as ondas no mesmo ritmo casal, eram o  público do espetáculo no palco de areia.
Nair Gevezier 14/06/2018. 

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