Tieta sozinha na sala observou a mobília. Tudo se consevara igual. Caminhou até o corredor, a porta do quarto onde dormiu com um homem numa cama pela primeira vez, e onde tantas noites felizes passou com Ricardo estava entreaberta. Entrou suavemente.
Ricardo estava lá. Absorto em seus pensamentos, sentado à penteadeira onde outrora admirava a tia em seus cuidados.
TIETA: __ Achei que tivesse perdido! Procurei por toda parte em São Paulo.
Ricardo desperta de seu devaneio e percebe Tieta atrás dele segurando um lenço de seda. Aquele lenço! Testemunha ocular de seus amores e amarguras desde menina. Que apesar dos pesares conseguiu conservar intacto ao longo da vida, e agora se encontrara em poder do sobrinho.
RICARDO: __ Eu ajudei Cora limpar sua casa depois da tempestade. Disse à ela que seus objetos pessoais ficariam comigo até a reforma. Ela concordou.
Tieta olha em volta e se depara com com vários pertences seus: um robe, outras echarpes e até potes de cremes, os quais Ricardo sabia que usava ele comprou, só para manter o ambiente como antes. Se abrisse o armário encontraria roupas, sapatos e camisolas.
TIETA: __ Não tem cabimento isso, Cardo!
RICARDO: __ Isso o que?
TIETA: __ Esse quarto, um espaço parado, onde você poderia dormir com sua esposa, servindo de museu.
RICARDO: __ Foi o jeito que eu encontrei de ter você perto de mim. Quando bateu o arrependimento de ter casado sem amor, quando minha posição política e o levantamento da cidade dependiam de uma perfeita união conjugal você estava longe... eu.
TIETA: __ Resolveu criar um museu em minha homenagem e viver do passado. Isso é uma sandice, um disparate! Você precisa viver!
RICARDO: __ "Minha vida é você. "
Tieta sente-se comovida com a resposta de Ricardo e antes que ela viesse com novos argumentos Ricardo lhe aplicou "um cheiro no cangote", aquele cheiro! o qual era autodidata, que por uns segundos a fez se render. Mas logo recobrara os sentidos.
TIETA: __ Eu vim conversar com Imaculada, ver as crianças. Minha chegada foi "um tanto intempestiva ". Não os vi direito.
RICARDO: __ Eles foram para a ONG. Só voltam mais tarde.
Tieta abre o armário pega uma peça de roupa.
TIETA: __ Essa camisola também ficou por aqui?
RICARDO: __ Adorava te ver desfilando pela casa com ela. Sempre me traz de volta a noite a qual, aqui nesse quarto, nessa cama você me ensinou o "ipicilone duplo. "Ricardo aperta um robe transparente entre os dedos.- Foi vestida com ela e com esse robe que você me deu um tapa na cara e disse que não queria me ver nunca mais na sua frente.
TIETA:__ E tu lembra de tudo isso? - diz num misto de surpresa e comoção ao ouvir os relatos do sobrinho.
RICARDO: __ Lembro de cada detalhe da noite mais importante da minha vida. Depois da briga, foi tudo tão maravilhoso! A primeira noite que que tu deixou eu dormir agarradinho contigo até amanhecer.
Ambos olham a cama com olhar de cumplicidade e nostalgia.
O calor começou a se intensificar, lá fora o céu escurecia antes do horário de costume. Parecia que vinha um temporal daqueles! Fato pouco comum no Agreste. Os moradores contam nos dedos os temporais que presenciaram. Chuvas fortes eram raras.
Tieta tenta manter distância considerável de Ricardo. A emoção do momento, o choque de está de volta aquele quarto como se ainda fosse seu, lhe traziam fortes recordações, e a presença do sobrinho mexia com ela.
TIETA: __ É melhor eu voltar outra hora. Hoje é dia de pleno funcionamento dessa bendita ONG. Passei na casa de Nora, nem ela, nem as crianças. Aqui a mesma coisa. Antes de voltar pra São Paulo, faço uma visita à Imaculada e aos teus filhos. Só os conheço por fotos.
RICARDO: __ Quando tu pretende voltar? - Ricardo sente-se transtornado com a ideia da partida de Tieta.
TIETA: __ Breve. Mas antes tenho que conhecer essa ONG, onde o mulherio do Agreste se reconstruiu. Aliás D. Aída vice-prefeita! Quem diria que essa cidade teria uma mulher num cargo tão importante? Eu sei que todo trabalho social em Buraco Fundo é projeto dela.
RICARDO: __ As mulheres do Agreste tem você como inspiração, foi você que transformou essa cidade.
Ricardo se aproxima de Tieta para beija-la, ela recua, mas um trovão faz com que ela o abrace.
A tempestade que se anuncia, traz à Tieta duras recordações. Lembranças da última noite que passou naquele quarto, marcada por uma terrível discussão com Perpétua. As duas irmãs disseram coisas imperdoáveis uma à outra. Cada insulto que uma gritava, cada ofensa de Perpétua, cada cobrança de Tieta era um raio que rebentava no céu.
Abraçada ao sobrinho parecia uma criança assustada, com medo dos trovões. Ricardo contemplava admirado essa imagem. A tempestade se intensifica.
RICARDO:__ Agora não tem como tu ir embora. Muito menos Imaculada voltar de Buraco Fundo tão cedo.
Tieta nada disse, só abraçou Ricardo como quem precisa de proteção. O perfume dela era o mesmo, o cheiro dos cabelos... os seios arfavam cada vez mais forte com o som da tempestade.
A chuva caía pesada, os dois se aproximam da cama, o lenço que até a hora do primeiro trovão estava nas mãos de Tieta escorregou, a camisola e o robe já estavam no chão.
Mais uma vez os corpos obedeceram à natureza e se amaram naquele leito, onde tantas vezes haviam se perdido de paixão.
Aquela cama, leito sagrado, santuário de amor e perdição significativa muito para os amantes.
Tão forte e tão intenso como o temporal lá fora, era o ritmo dos corpos se amando. Cada centímetro de pele um do outro eram antigos conhecidos, conversavam e se entendiam perfeitamente. Sabiam conjugar com maestria o verbo amar. Cada raio, cada trovão lá fora, era um êxtase no santuário do "ipicilone duplo ".
Quando a madrugada se despediu levou consigo a tempestade. Ao amanhecer Imaculada chegou trazendo com a ajuda de Aracy, os meninos que ainda dormiam.
Ao acomodarem as crianças, Aracy seguiu para a cozinha, Imaculada estranhou "o quarto proibido " está com a porta entreaberta e foi conferir, tentar finalmente descobrir o que fazia o marido passar horas a fio lá dentro. Andando sorrateira para não espantar a lebre, levou um susto, ao ver Tieta dormindo tranquila, parecia um anjo.
Ela usava a camisola, pedido de Ricardo entre um intervalo e outro da noitada.
Chocada com o que vê Imaculada nem se deu conta que Ricardo entrava trazendo uma bandeja de café.
A cama totalmente desfeita roupas espalhadas pelo chão... o lenço de seda ao lado de Tieta, todo esse cenário formava uma cena de terror aos olhos de Imaculada.
Nair Gevezier 08/07/2018.
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