Não tinha medo,
A Tieta do Agreste
Era o que todos diziam
Quando nas dunas
Se perdeu.
Deixou pra trás
Todo marasmo da cidade
Só pra sentir no seu sangue
A garra que Jesus lhe deu.
Quando menina
Só pensava em ser feliz
Ainda mais, quando o "ipicilone duplo "
Com Lucas aprendeu.
Era o terror da cidade
Onde morava
No sonho de todos os homens
A Tieta apareceu.
Não ia muito à igreja,
Porque não
Precisava rezar.
Sentia que era mesmo diferente
Sentia que aquele ali não era seu lugar.
Ela queria com Lucas viajar
No Agreste não tinha nem televisão,
Mas ele era um homem do mundo
Por isso não alimentou sua ilusão.
Corria à noite toda cidade
De tanto brincar de médico
Aos doze era professora.
Bem jovem foi expulsa à pauladas
Onde aumentou seu ódio
Diante da sociedade repressora.
Não entendia como a vida funcionava
Por ser livre agora conhecia a dor
Sozinha no mundo foi obrigada
A se virar pelas estradas de Salvador.
E passando muito aperto
Decidiu que pra São Paulo
Ela iria viajar.
Conseguiu uma passagem
Não podia perder oportunidade
De sua vida recomeçar.
Ela pensava:" estou indo pra São Paulo
Nesse país lugar melhor, não há
Meu pai enxotou a própria filha
Foi um jeito de me libertar.
"
E Tieta começou sua saga
Num ônibus entrou para a capital
Ela ficou bestificada com a cidade
Saindo da rodoviária pegou a marginal.
"Meu Deus, mas que cidade incrível! "
Agora é só começar a trabalhar
Fazer programa, rodar a bolsinha
Ganhava cem por mês na Rua Augusta.
Na sexta-feira ia pra zona da cidade
Ganhar algum dinheiro de um rapaz trabalhador
Conhecia muita gente importante
Tornou-se a preferida de um comendador.
Um paulistano que vivia da indústria
E por Tieta foi se encantar
Seu nome era Felipe, ele dizia
Um negócio pra Tieta ia começar.
E a Tieta até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ela se alimentar.
O jeito foi se aproximar de Felipe
E a sua ajuda aceitar.
Ela não queria mais conversa
E como prometeu à Carmosina
Decidiu que ia se vingar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E o casarão de Higianopolis
foi inaugurar.
Logo, logo os boyzinhos da cidade
Souberam da novidade
"Tem vadia Boa aí. "
E Tieta ficou rica e acabou
Com todas cafetinas dali.
Fez amigos importantes
Frequentava a alta roda
Pra melhor se relacionar .
E já com muito dinheiro
Dos parentes e da cidade
Ela começou se lembrar.
Depois de muito tempo no Agreste pensou
E pra família mandou dinheiro
pela primeira vez
Um cheque gordo, no dia cinco
Passou a chegar todo mês.
Agora a Tieta era rica
Destemida e temida por toda capital
Não tinha nenhum medo de polícia
Esposas, políticos, playboy ou marginal.
Um belo dia decidiu voltar pro Agreste
Cumprir a vingança que um dia prometeu.
Ficou surpresa quando chegou à cidade
E escutou o boato: "Tieta morreu."
Ela conheceu o Ricardo
E com o coração do sobrinho mexeu.
Ricardo estava pra ser padre
Mas desistiu quando a tia conheceu.
Ele dizia que queria se casar
E pra Tieta sempre viver
"Minha cabra, pra sempre vou te amar
Só do seu lado eu consigo viver. "
Os dois se amaram,
Mas Perpétua resolve estragar tudo
E a Tieta ameaçar
"Se você não reparar o mal
Vou contar pra todo mundo
E da cidade mais uma vez te expulsar."
"Não sou louca de casar
Só pra te satisfazer
Se é dinheiro que tu quer
É dinheiro que você vai ter."
É melhor você sair da minha casa
Porque não vou ceder sua chantagem não.
Antes de sair Perpétua olhou com sangue nos olhos
E disse: você perdeu sua pose
Vai sair dessa cidade escurraçada como cão.
Mas o Ricardo resolveu
Voltar pro seminário pela Tieta se sacrificar.
E a Tieta entregou o testamento
Que dizia que ao morrer
Seu patrimônio os sobrinhos iriam herdar.
Perpétua dali pra frente
Decidiu que com Tieta ia acabar.
Foi quando um dossiê
Com o passado da irmã
Apareceu por lá.
Perpétua, beata sem vergonha
Organizou a cerimônia pra Tieta desmascarar
Odiava a irmã porque era quenga
E esse fato pra cidade ia contar.