Longe demais para dizer
“eu te amo”
Uma
caravana de artistas mambembes fez uma parada numa pequena cidade, onde a vida
das pessoas era muito pequena também.
Uma
jovem que se sentia infeliz com a vida que levava com a família se encantou com
o mágico e no dia da partida dos artistas resolveu seguir viagem com eles. Ela
desejava conhecer o mundo e essa era uma ótima oportunidade.
O
dono da companhia relutou, pois era mais uma boca para comer e mal tinham para eles.
Mas no final das contas acabou concordando. A jovem muito feliz subiu no
caminhão deixando para trás a família, que era tudo o que possuía.
Na
primeira parada, numa cidadezinha menor que a sua descobriu que os coelhos que
saiam da cartola do mágico precisavam de comida de verdade, faziam cocô de
verdade e era ela quem precisava atender a essas necessidades. Descobriu também
que antes dos possíveis aplausos que receberia da plateia teria que lavar a
roupa dos artistas, carregar água para o banho de todos e cuidar dos animais.
Chegou
o tão esperado dia: ia se apresentar como artista, não no espetáculo, mas
durante o dia fazendo panfletagem vestida de leão. O calor era escaldante, mas
estava feliz.
Cada
vez mais longe de casa, cada parada da caravana não durava mais que três dias, o
trabalho de levantar e desmontar acampamento já se tornava rotina. E toda
rotina se torna cansativa.
Atendendo
ao mágico descobriu que este e a bailarina eram mais que parceiros de cena.
E
as cidades por onde passavam? De nada tinham de diferentes da sua. Até quando
conheceu o mar, viu que seu encanto não era maior que sua imensidão.
Então
percebeu que a felicidade, ou a grandeza da vida não estão nos lugares
desconhecidos, não estão nas expectativas que criamos sobre pessoas, isso tudo
reside em nós mesmos. Nas pequenas coisas com as quais convivemos e de tão
perto não enxergamos.
Foi
aí que sentiu saudade de casa, da família, do quintal o qual reclamava tanto
para varrer. Percebeu também que nunca tinha dito “eu te amo”, aos pais, aos
irmãos. Estavam ali o tempo todo e ela nunca os viu, precisou que um mágico a
iludisse para enxergar a verdade.
Muitas
vezes temos a felicidade tão perto, mas tão perto que não a enxergamos, e
quando nos damos conta já estamos longe demais de casa, aí já é tarde para
dizer “eu te amo”.
Nair Gevezier 03/03/2017.
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