Sempre é tempo de recomeçar

Muitas vezes achamos que tudo está perdido, o sonho acabou e nada mais resta. Porém esquecemos que estamos vivos e por mais que as coisas estejam ruins há sempre um recomeço.
Enquanto houver oxigênio haverá problrmas, e é um bom sinal, pois nos problemas estão os maiores desafios e estes nos fazem sentimos vivos.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A menina e o livro

Na ponta dos pés sobre um banquinho em frente à estante, Marina tenta alcançar um livro. São tantas histórias incríveis que seus olhinhos ficam embriagados e seus pezinhos quase a derrubam.
Ela tenta alcançar Dom Quixote, ouviu sua mãe narrar a luta contra os gigantes moinhos de vento.  Ela quer ter certeza se eram gigantes,  ou moinhos.  Na época ainda não sabia ler, e sua mãe pode ter se enganado.
Bem ao lado do herói de"La Mancha", estão as aventuras de "Robson Crusoé", e agora? Qual dos dois Marina vai resgatar da estante? E mais difícil!  Suas mãos pequeninas não conseguem chegar a nenhum deles. Ela não quer pedir ajuda. É um momento muito importante da sua vida!  A escolha do primeiro livro,  o qual fará a leitura sozinha.  Não pode haver interferência!
Oh, dúvida cruel!  Mas na prateleira logo abaixo,  bem ao alcance de suas mãos,  está lá, todo exibido,  doido para ser lido,  manuseado,  "Memórias de Emília ", do incrível Monteiro Lobato.
A boneca já é sua conhecida faz tempo,  então decide por ela.
Logo no início se surpreende ao constatar  que para escrever suas memórias,  A "Marqueza de Rabicó", "não quer cansar sua mãozinha " recorrendo ao Visconde de Sabugosa para escrevê-las.
Decepciona-se com a boneca de pano,  que pensa feito gente, nos trechos os quais ela é malcriada e grosseira com "Tia Nastácia ", mas não desiste da leitura. "Emília era boneca e virou menina.  Meninas às vezes fazem malcriações." Pensava enquanto lia.
Mais adiante na leitura Marina encontra Dom Quixote,  olha que bacana! Emília também gosta do herói sonhador,  "que só queria um mundo mais justo ", e isso lhe custou a vida e a sanidade mental.  A boneca não concordava com isso!
Ao final do livro percebe que Emília,  apesar de malcriada e abusada   é a criatura mais pensante que já conheceu.  Ela pensa,  diz o que pensa e como pensa. Isso a assustou no início e vem assustando muita gente ao longo dos tempos.
Emília não se conforma com as injustiças do mundo e não se cala diante delas. Sua sinceridade absurda choca a muitos, como Marina que doutrinada a não  dizer certas palavras, " favela não,  Marina! É comunidade!" Seu raciocínio coerente e sem "blá blá blá ", afinal bonecas não precisam de hipocrisia, comove Marina. Fazendo com que termine a leitura com lágrimas nos olhos e muitas ideias na cabeça.

Nair Gevezier  16/07/2018.
      

domingo, 15 de julho de 2018

Hoje eu sei

Hoje eu sei, acredito
Que tinha que acabar
"Tudo o que é bom
Dura um tempo exato
Para que possa para
Sempre perdurar."

Mas não foi fantasia
Tão pouco ilusão
Era uma onda forte
Que crescia
Uma louca e inesquecível paixão.

Hoje eu sei, não duvido
Nosso amor para sempre vai durar.
Só se transformou em bruma
Como as ondas do mar.

Com o tempo, tudo muda
A vida tem de seguir
Sigo em frente, vou à luta
E outra paixão hei de sentir.

Hoje eu sei, acredito
Não podia mas durar
Mesmo longe dos teus olhos
Eu pra sempre vou lembrar.

Nair Gevezier 15/07/2018.

Da época que fui feliz VII final

Imaculada ainda abalada com as revelações de Ricardo,  chorou aos pés de Tieta.
TIETA: __ Mas o que é isso,  uma cabrita valente feito você,  chorando desse jeito só por causa de uma conversa!  Vê se tem cabimento isso? 
IMACULADA: __ Não é isso D. Tieta.  Ricardo está decidido a se separar de mim.
TIETA: __ Lá atrás,  quando eu tomei minhas providências e fiz com que Ricardo notasse o seu amor por ele, eu achava que estava fazendo o melhor para os dois. Mas eu errei. Errei em parte, é claro! Vocês foram felizes, tiveram filhos lindos,  mas agora, isso acabou, pelo menos para ele.
IMACULADA: __ Mas e eu, como fico? Ricardo não quer mais está casado e me deixa simplesmente.  Como uma roupa da qual enjoou?
TIETA: __   Deixe disso que tu sempre foi forte e determinada, é capaz de superar essa situação e dar a volta por cima.
IMACULADA: __ A senhora diz isso porque tem Ricardo aos seus pés.
TIETA:__ Minha história com Ricardo é coisa lá do passado,  não tem nada a ver com essa crise a qual ele atravessa.
IMACULADA: __ Como não?  Ele lhe venera, passa horas naquele quarto,  sentido seu perfume, nunca permitiu que eu, ou as crianças entrássemos lá.
TIETA: __ Ele se apega a minha imagem porque tivemos uma história bonita,  eterna. Nos amaremos para sempre. Tu sempre soube disso. E foi na minha lembrança que ele buscou conforto nesse momento de dúvida.
IMACULADA: __ Ele disse que quer apenas a minha amizade.
TIETA: __ Isso é bom! As crianças precisam de vocês bem para que cresçam em segurança,  sabendo que tem pais presentes com quem podem contar.
IMACULADA: __ A senhora acha que devo abrir mão do meu casamento?
TIETA: __ Teu casamento já acabou.  Ficar arrastando correntes só vai lhe impedir de viver. Tu é jovem, talentosa, vai conhecer alguém.  Aproveita o lançamento do teu novo livro e vai viajar, conhecer outras realidades.
Aracy chegou com os meninos. Ao se depararem com Tieta ficaram encabulados, mas logo Ricardinho disse:
RICARDINHO: __ A tia é mesmo bonita,  como o pai sempre disse pra gente!
THIAGO: __ Sim. Ela é linda!
TIETA: __ Vocês são muito mais lindos pessoalmente do que nas fotos.  Eu soube que são excelentes desenhistas.  Que a ilustração do livro novo da mamãe é obra de vocês.  Que tal fazerem um desenho para mim e depois vamos tomar um sorvete?
RICARDINHO: __ Boa ideia! A gente vai fazer lá no quarto e depois a senhora vê e diz qual ficou mais bonito.  (Saem).
TIETA: __ Tá vendo?  Teus filhos são lindos, inteligentes, você tem muito o que viver. Vou conversar com os dois a respeito da separação.  Te garanto que vão até gostar de viverem em duas casas. Ricardo de cabeça fria, será um pai mais presente. E tu, sem se preocupar com o que perturba Ricardo e olhando mais para si, será uma mãe melhor, uma pessoa mais feliz.
No início dói, mas não há nada que o tempo não cure. Vou ver as crianças no quarto e conversar com elas. Depois vou leva-los para tomar um sorvete.  Aproveita para colocar as ideias no lugar.
Durante o jantar os meninos contaram empolgadíssimos a tarde com a tia.
RICARDINHO: __ Ela é muito linda pai!
THIAGO: __ Convidou a gente para passar o fim de semana na praia e a mamãe deixou.
Ricardo olha para Imaculada.
IMACULADA: __ Sim, eu deixei. Porque quando vocês voltarem de Mangue Seco,  nós já estaremos morando na nossa antiga casa. Só nós três,  o papai vai ficar morando aqui.
THIAGO: __ A tia falou isso. Agora a gente vai ter duas casas e ainda passar as férias na casa dela em Mangue Seco.  Não é o máximo?
RICARDO: __ Sim, é bacana! Agora vão escovar os dentes e fazer o dever de casa! Aposto que ficaram bobos com a tia e esqueceram da vida.
Quando os meninos saem, Imaculada diz a Ricardo que deixou que eles fossem para à casa de Tieta para fazer a mudança mais fácil. Mandou que Aracy fosse junto para ajudar tomar conta e gostaria muito que o pai os acompanhasse nesse fim de semana na praia. Assim facilitaria para ela.
Iriam voltar a morar na casa que ganharam de Tieta quando se casaram. Uma moça de Buraco Fundo a ajudaria nas tarefas domésticas e Aracy ficaria no casarão com Ricardo.
O fim de semana na praia foi pura diversão.  Os meninos brincaram até cansar, Aracy e Cora colocaram as fofocas em dia.
A noite quando todos exaustos caíram em sono profundo,  Tieta e Ricardo ficaram a sós.
RICARDO: __ Tu sempre surge para me libertar. Antes foi da batina, agora do casamento.  Mas amanhã, tu vai embora?
TIETA: __ Pra que pensar no amanhã, cabrito? Temos uma noite inteira só para nós.
Saciada a paixão,  aplacado o desejo latente,  os corpos agora se amavam num ritmo mais lento.  Era uma canção de amor. 
A lua resolveu retardar sua partida,  já era minguante, mesmo assim, no céu imponente junto às estrelas era público daquele espetáculo de amor.
As ondas do mar depois de tanto quebrarem com violência diante da janela aberta, já não eram mais euforia. No quarto,  só amor!
Enquanto a lua permanecia de vigília, atrasando a entrada do sol, as ondas diminuíam seu vai e vem. Pois sabiam que agora tudo era amor...
Na cidade,  nas casas vizinhas a de Tieta, os pescadores, todos estranhavam aquela noite sem fim. "Será que o sol perdeu a hora? "
A canção que entorpecia os habitantes nos últimos dias também se fazia presente,  seus acordes no ar ora abaixavam o tom, ora tocavam mais fortes à medida que os dois se amavam.
Enquanto o dia não raiasse, Tieta não partiria, e agora tudo o que sentiam era amor. 
A lua cúmplice dos amantes impedia a aproximação do sol. E tudo era amor naquela madrugada que se arrastava, naquela noite sem fim tudo foi amor.
        Fim!
Nair Gevezier 15/07/2018.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Da época que fui feliz VI

Tieta despertou com o olhar espantado de Imaculada a observa-la. Olhou em volta e percebeu que Cardo e Aracy também estavam no quarto. Esta se surpreendeu ao ver o patrão sair da cozinha carregando uma bandeja, resolveu segui-lo.
TIETA: __ Bom dia! Vim ontem conversar com você, Imaculada, e ver as crianças,  acabei ficando presa aqui por conta da chuva. Diz esboçando um belo sorriso.
IMACULADA: __ Nós também ficamos presos em Buraco Fundo por causa do temporal. - sem demonstrar qualquer emoção.
TIETA: __ A sorte que Ricardo trouxe pra cá todas roupas e objetos que eu tinha deixado na minha casa, para guarda-Los até que a reforma seja concluída.
ARACY:__ É verdade. Eu cuido da sua roupa,  lavo, passo para não ficar com cheiro de guardado. E também cuido do quarto,  tudo igualzinho quando a senhora morava aqui, D. Tieta.
Imaculada olha furiosa para Ricardo e Aracy.  Ricardo continua imóvel segurando a bandeja sem saber o que fazer para sair daquela situação.  Tieta o socorre.
TIETA: __ Você fez café pra mim. Ah, não precisava trazer no quarto.
Ricardo apoia a bandeja dizendo:
RICARDO: __ Tenho que me arrumar para o trabalho.  Com licença!
Ao entrar no quarto onde dorme com Imaculada,  desfaz a cama, ele deseja acabar seu casamento,  mas não quer que a esposa descubra que foi traída.
No outro quarto Tieta e Imaculada estão sozinhas.
IMACULADA: __ A senhora voltou para ficar?
TIETA: __ Não.  Eu vim porque estou preocupada com Ricardo.  Na última que falei com ele por telefone senti que havia algo de errado.  Por isso resolvi visitá-los.
IMACULADA: __ Conseguiu descobrir qual o motivo de tanta estranheza e tanto isolamento? Afinal vocês passaram duas noites inteiras juntos.  Tiveram muito tempo para conversar.
TIETA: __ Eu quero muito conversar contigo também,  mas agora você tá cansada. Vou embora e depois do almoço volto para termos uma conversa franca e madura. Pode ser?
IMACULADA: __ Essa hora estou sozinha em casa, as crianças estão na escola,  Ricardo na prefeitura.
TIETA: __ Ótimo!  Descanse, cabrita! O que eu tenho para te falar é sério,  não dá pra ser depois de uma noite mal dormida, e muito menos sem tomar café da manhã.
Antes de sair Tieta  passou pela sala de jantar onde Aracy servia café aos patrões. 
TIETA: __ Obrigada pela hospitalidade, Cardo.  Aracy, obrigada por cuidar tão bem das minhas coisas, até mais tarde Imaculada.  Esse aqui volta comigo para São Paulo. - estende o lenço para Cardo.
Todos se despedem meio que intimidados. Tieta causa as diversas reações nas pessoas, ninguém fica indiferente à sua presença.
Mais tarde Imaculada vai até à prefeitura procurar Cardo para conversar com ele antes de ouvir o que Tieta tinha para lhe dizer. No seu íntimo talvez Ricardo tivesse algo a lhe revelar, mas estava propensa a acreditar em qualquer desculpa que este viesse a dar.
IMACULADA: __ A gente pode conversar?
RICARDO: __ Aqui não é local e nem hora pra conversa Imaculada.
IMACULADA: __Quando vai chegar a hora? Há tempos venho tentando essa conversa, mas você foge. Depois que sua tia chegou então...
RICARDO: __ Não envolva Tieta nisso. Ela não tem nada a ver com nossos problemas.
IMACULADA: __ Nossos problemas?  Até onde eu sei, tu é que está com problema.  E que estória é essa de manter o quarto da sua tia intocado? 
RICARDO: __ Imaculada,  eu gosto muito de ti, te admiro, foi bom te conhecer. Mas dividir a vida contigo,  só como amigos. Eu não te amo como mulher.
IMACULADA: __ (Chorando) Então, por que casou comigo, teve dois filhos?
RICARDO: __ Eu me iludi achando que podia te amar, mas estou infeliz e te arrastando junto comigo.
IMACULADA: __ Você acha que D. Tieta vai ficar no Agreste pra sempre,  casar contigo e te fazer feliz?
RICARDO: __ Independente de Tieta, quero me separar de você.
IMACULADA: __ E as crianças?
RICARDO: __ Eu vou deixar de viver com você como marido e mulher. Não vou deixar de ser pai dos meus filhos.
IMACULADA: __ Se morando na mesma casa você nunca vê os meninos.  Em casas separadas  esquecerá deles totalmente.
RICARDO: __ Eu me afastei dos meninos porque não estou bem comigo mesmo, mas estou disposto a reparar isso.
IMACULADA: __ Eu te faço mal, então?
RICARDO: __ Não foi isso que eu disse, mas sou obrigado a admitir que nosso casamento foi um erro.
A noite conversamos melhor.  Agora vou até Buraco Fundo.  Depois do jantar a gente senta e conversa sobre nossas vidas.
Imaculada temia o que iria ouvir de Tieta. Conhecia sua franqueza e determinação,  não suportaria ouvi-la dizendo: " quero Ricardo de volta! " mas era impossível fugir dessa conversa.
Na sala Tieta a esperava, brincava com uma echarpe entre os dedos.
TIETA: __ Então, cabrita,  preparada para nossa conversa?

Nair Gevezier 13/07/2018.

O casamento de Ricardo e Tieta

Santana inteira se agita
Com um casório que está
Para acontecer.
Mas são tia e sobrinho
"Como é que pode ser?"

Padre Mariano estranhou
Quando Ricardo lhe contou
Que com Tieta iria se casar.
Ele não acreditou, muito sério
Decretou: " essa cerimônia eu
Não posso realizar."

Mas se Deus já abençoou,
Quem era ele então, para
No caminho do amor querer
Se atravessar?

Quando o sino badalou
A cidade toda esperava
O povo reunido comprovou
Quando Perpétua entrou
E na direção do altar
O filho levava.

Uns minutos de silêncio
No peito de Ricardo uma aflição.
O povo se alterou
Quando a marcha nupcial tocou
Para Tieta gloriosa entrar.

Linda de vermelho surgiu
Noiva igual o Agreste
Jamais viu.
Plena e majestosa
Enquanto caminhava
Todo povo jura que ouviu
Um sino que tintilava.

Ninguém acreditava
Mas o padre celebrava
Uma união tão delicada
Se perguntavam:
"Onde esse mundo vai parar?"
Mas os noivos não se importavam
Com o que todos iriam falar.

Eles queriam acabar
Com a hipocrisia e seu amor
Para todos revelar.
Pois o destino estava traçado
Ambos estavam marcados
Na vida um do outro
Sempre iriam estar.

Nair Gevezier 13/07/2018.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

Desse jeito não!

Não vou entrar numa forma
Para ficar bem na sua forma
Vivo a vida como acho direito
Sem me preocupar com perfeito,
Ou imperfeito.
Se não  aceita o meu jeito
Não tem jeito,  se conforma.

Preto, branco, gordo, magro, gay,
Ou japonês.
Não importa o que tenham feito,
Ou não feito.
Serão apontados na rua uma,
Ou outra vez.
Por não estarem no conceito
De perfeito.

A patrulha do politicamente correto
Não descansa, sempre a nos perseguir
Uma palavra considerada inadequada,
É o suficiente para nos punir.

Não quero esse mundo,
O qual quem não tem argumentos
Para defender sua opinião
Invade mídias sociais com pornografia
Só para desacreditar seu "oponente "
E espalhar difamação.

Nair Gevezier 09/07/2018.

domingo, 8 de julho de 2018

Da época que fui feliz V

Tieta sozinha na sala observou a mobília. Tudo se consevara igual. Caminhou até o corredor, a porta do quarto onde dormiu com um homem numa cama pela primeira vez, e onde tantas noites felizes passou com Ricardo estava entreaberta. Entrou suavemente.
Ricardo estava lá. Absorto em seus pensamentos, sentado à penteadeira onde outrora admirava a tia em seus cuidados.
TIETA: __ Achei que tivesse perdido! Procurei por toda parte em São Paulo. 
Ricardo desperta de seu devaneio e percebe Tieta atrás dele segurando um lenço de seda. Aquele lenço!  Testemunha ocular de seus amores e amarguras desde menina.  Que apesar dos pesares conseguiu conservar intacto ao longo da vida,  e agora se encontrara em poder do sobrinho.
RICARDO: __ Eu ajudei Cora limpar sua casa depois da tempestade. Disse à ela que seus objetos pessoais ficariam comigo até a reforma.  Ela concordou.
Tieta olha em volta e se depara com com vários pertences seus: um robe, outras echarpes e até potes de cremes, os quais Ricardo sabia que usava ele comprou, só para manter o ambiente como antes. Se abrisse o armário encontraria roupas, sapatos e camisolas.
TIETA: __ Não tem cabimento isso,  Cardo!
RICARDO: __ Isso o que?
TIETA: __ Esse quarto, um espaço parado, onde você poderia dormir com sua esposa, servindo de museu.
RICARDO: __ Foi o jeito que eu encontrei de ter você perto de mim. Quando bateu o arrependimento de ter casado sem amor,  quando minha posição política e o levantamento da cidade dependiam de uma perfeita união conjugal você estava longe... eu.
TIETA: __ Resolveu criar um museu em minha homenagem e viver do passado. Isso é uma sandice,  um disparate! Você precisa viver!
RICARDO: __ "Minha vida é você. "
Tieta sente-se comovida com a resposta de Ricardo e antes que ela viesse com novos argumentos Ricardo lhe aplicou "um  cheiro no cangote", aquele cheiro! o qual era autodidata, que por uns segundos a fez se render. Mas logo recobrara os sentidos.
TIETA: __ Eu vim conversar com Imaculada, ver as crianças. Minha chegada foi "um tanto intempestiva ". Não os vi direito.
RICARDO: __ Eles foram para a ONG.  Só voltam mais tarde.
Tieta abre o armário pega uma peça de roupa.
TIETA: __ Essa camisola também ficou por aqui?
RICARDO: __ Adorava te ver desfilando pela casa com ela.  Sempre me traz de volta a noite a qual,  aqui nesse quarto,  nessa cama você me ensinou o "ipicilone duplo. "Ricardo aperta um robe transparente entre os dedos.- Foi vestida com ela e com esse robe que você me deu um tapa na cara e disse que não queria me ver nunca mais na sua frente.
TIETA:__ E tu lembra de tudo isso? - diz num misto de surpresa e comoção ao ouvir os relatos do sobrinho.
RICARDO: __ Lembro de cada detalhe da noite mais importante da minha vida. Depois da briga, foi tudo tão maravilhoso!  A primeira noite que que tu deixou eu dormir agarradinho contigo até amanhecer.
Ambos olham a cama com olhar de cumplicidade e nostalgia.
O calor começou a se intensificar,  lá fora o céu escurecia antes do horário de costume.  Parecia que vinha um temporal daqueles! Fato pouco comum no Agreste.  Os moradores contam nos dedos os temporais que presenciaram. Chuvas fortes eram raras.
Tieta tenta manter distância considerável de Ricardo. A emoção do momento, o choque de está de volta aquele quarto como se ainda fosse seu, lhe traziam fortes recordações, e a presença do sobrinho mexia com ela.
TIETA: __ É melhor eu voltar outra hora.  Hoje é dia de pleno funcionamento dessa bendita ONG. Passei na casa de Nora,  nem ela, nem as crianças.  Aqui a mesma coisa. Antes de voltar pra São Paulo,  faço uma visita à Imaculada e aos teus filhos.  Só os conheço por fotos.
RICARDO: __ Quando tu pretende voltar? - Ricardo sente-se transtornado com a ideia da partida de Tieta.
TIETA: __ Breve.  Mas antes tenho que conhecer essa ONG, onde o mulherio do Agreste se reconstruiu.  Aliás D. Aída vice-prefeita! Quem diria que essa cidade teria uma mulher num cargo tão importante?  Eu sei que todo trabalho social em Buraco Fundo é projeto dela. 
RICARDO: __ As mulheres do Agreste tem você como inspiração,  foi você que transformou essa cidade.
Ricardo se aproxima de Tieta para beija-la, ela recua, mas um trovão faz com que ela o abrace.
A tempestade que se anuncia,  traz à Tieta duras recordações.  Lembranças da última noite que passou naquele quarto, marcada por uma terrível discussão com Perpétua.  As duas irmãs disseram coisas imperdoáveis uma à outra.  Cada insulto que uma gritava,  cada ofensa de Perpétua, cada cobrança de Tieta era um raio que rebentava no céu.
Abraçada ao sobrinho parecia uma criança assustada, com medo dos trovões. Ricardo contemplava admirado essa imagem.  A tempestade se intensifica.
RICARDO:__ Agora não tem como tu ir embora.  Muito menos Imaculada voltar de Buraco Fundo tão cedo.
Tieta nada disse, só abraçou Ricardo como quem precisa de proteção. O perfume dela era o mesmo,  o cheiro dos cabelos... os seios arfavam cada vez mais forte com o som da tempestade.
A chuva caía pesada, os dois se aproximam da cama, o lenço que até a hora do primeiro trovão estava nas mãos de Tieta escorregou, a camisola e o robe já estavam no chão.
Mais uma vez os corpos obedeceram à natureza e se amaram naquele leito, onde tantas vezes haviam se perdido de paixão.
Aquela cama, leito sagrado, santuário de amor e perdição significativa muito para os amantes.
Tão forte e tão intenso como o temporal lá fora, era o ritmo dos corpos se amando. Cada centímetro de pele um do outro eram antigos conhecidos, conversavam e se entendiam perfeitamente.  Sabiam conjugar com maestria o verbo amar. Cada raio, cada trovão lá fora, era um êxtase no santuário do "ipicilone duplo ".
Quando a madrugada se despediu levou consigo a tempestade. Ao amanhecer Imaculada chegou trazendo com a ajuda de Aracy, os meninos que ainda dormiam.
Ao acomodarem as crianças, Aracy seguiu para a cozinha, Imaculada estranhou "o quarto proibido " está com a porta entreaberta e foi conferir,  tentar finalmente descobrir o que fazia o marido passar horas a fio lá dentro. Andando sorrateira para não espantar a lebre, levou um susto, ao ver Tieta dormindo tranquila,  parecia um anjo.
Ela usava a camisola, pedido de Ricardo entre um intervalo e outro da noitada.
Chocada com o que vê  Imaculada nem se deu conta que Ricardo entrava trazendo uma bandeja de café. 
A cama totalmente desfeita roupas espalhadas pelo chão... o lenço de seda ao lado de Tieta, todo esse cenário formava uma cena de terror aos olhos de Imaculada.

Nair Gevezier 08/07/2018.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Da época que fui feliz IV

A lua estava mais distante,  no horizonte se preparava para descansar.  Era alta madrugada quando finalmente os corpos se separaram.
Naquela noite tudo era permitido. Com o raiar do dia, os amantes não saberiam qual seria seu destino.  Por isso,  Tieta permitiu que Ricardo amanhecesse o dia ao seu lado, no quarto que um dia foi sonhado para os dois. Acharam melhor deixar a janela aberta, para serem acordados com os primeiros raios de sol.
A manhã se anunciou,  os corpos mesmo exaustos de tanto amor e saudade,  uniram-se novamente. Amaram-se com a luz da manhã e ao som das ondas do mar. Estas quebravam num ritmo tenso e intenso, como a música que todos, no seu íntimo, ouviram na noite anterior.  Uma canção tão forte que cada acorde vibrava os nervos, aquecia o sangue e fazia corrê-lo mais rápido.
Um pescador que passava comentou:
PESCADOR: __ O mar hoje está agitado,  mas não parece revolta, parece que Iemanjá está dando uma festança!
Quando os corpos se afastaram outra vez, o mar era só calmaria.  A canção agora ia longe, fazendo coro distante para a despedida do casal.
TIETA: __ Agora você precisa ir embora.
RICARDO: __ E a gente como fica? Como vai ser depois?
TIETA: __ Continua o mesmo cabrito desarvorado de antes. Não pensa no que  pode acontecer depois. O que importa é aqui, agora...
Quando saíram do quarto Cora já havia preparado o café,  a mesa estava posta.
TIETA: __ Bom dia, Cora! Pra que tanta comida? "Tô sem fome nenhuma !"
CORA:__ Por isso mesmo, achei melhor fazer um bolo e trazer pão da cidade. Olhando para Ricardo diz:
CORA:__ Encontrei Aracy comprando pão.  Ela disse que sua mulher estava preocupada com o senhor, achando que tinha dormido na prefeitura.
TIETA: __ Cardo ficou me fazendo companhia, ficamos conversando, quando nos demos conta, era tarde demais.  Não tinha como atravessar o rio.
RICARDO: __ A lua estava tão bonita, que perdi a noção do tempo. Quando dei por mim era madrugada.
Antes de ir para a prefeitura, Ricardo passou em casa para tomar um banho e dar uma satisfação à Imaculada.  Não queria encontra-la depois daquela noite, mas era inevitável.
Muito aborrecida Imaculada o esperava. Não desfez a birra depois da explicação do marido.
RICARDO: __ Fazia muito tempo que eu não via Tieta, você sabe do afeto que tenho por ela, toda gratidão que sinto.  Tu bem sabe se não fosse ela, eu não seria prefeito,  Ascânio jamais seria deputado e Santana do Agreste estaria acabada. Nunca mais se reergueria da areia. Mesmo longe,  foi ela quem levantou essa cidade, ajudando com dinheiro e prestígio entre os políticos.
IMACULADA: __ Então, quer dizer que agora, enquanto sua tia estiver na cidade,  ao invés de passar as noites na prefeitura,  o senhor vai passar as noites na praia?
RICARDO: __ Eu fiquei admirando a lua, perdi a noção do tempo.
IMACULADA: __ Eu vou cuidar da minha vida. Vou para Buraco Fundo. É dia de "contação de histórias ". Se quiser ver os seus filhos,  almoce em casa! Porque depois Aracy vai levá-los para a ONG. Eles adoram ouvir histórias,  participar das rodas de conversa.
"Seria tão bom se Imaculada fosse abduzida e não voltasse nunca mais. De repente ficasse com ódio dele e decidisse ir embora." Esses pensamentos passavam pela cabeça de Ricardo enquanto tentava descansar. Mandou avisar Dona Aída, sua vice-prefeita, para assumir as funções na prefeitura aquele dia.
A imagem de Tieta se misturava a dos filhos. Agora era diferente! Tinha dois filhos. Mas se Imaculada fosse embora,  Tieta podia assumir Ricardinho e Thiago como se fossem seus. Tieta era boa, generosa e não deixaria os sobrinhos desamparados.
Ao mesmo tempo lembrava que não sabia se a tia tinha voltado de vez, ou apenas a passeio. Será que os dois teriam novo encontro?
Mesmo cansado, Ricardo almoçou com as crianças.
Quando Aracy saía para buscar os meninos na escola, Tieta chegava à casa que fora de Perpétua.
TIETA: __ Eu vim falar com Imaculada,  ver as crianças.
ARACY: __ Eu vou agora buscar os meninos na escola e levá-los  para Buraco Fundo.  Hoje é dia de Imaculada contar histórias para a criançada. Mas Cardo está aí.  Pode entrar D. Tieta.

Nair Gevezier 06/07/2018.