As cores da vida
Em
algum lugar no tempo, um pintor tenta freneticamente pintar o ritmo da vida.
Risca na tela o sol esplendoroso, que faz questão de brilhar e mostrar ao mundo
que vida continua, apesar dos conflitos pessoais de cada um.
Interrompe
os traços do sol para testar novas cores. Tem que ser incríveis, para gravar na
tela o olhar da moça bonita que passou. Tarde demais! Ela já passou, e ele não
conseguiu guardar aqueles olhos de oceano, ou seriam de céu límpido?
Enquanto
ele mistura as cores, busca o tom exato para pintar o céu daquele dia, o vento
traz uma nuvem e modifica a paisagem. Deixa o céu para lá. Agora vêm duas crianças
de bicicleta. Equilíbrio sobre rodas. É a vida em movimento! Mas qual a cor
perfeita? Pensou demais, perdeu a cena, as crianças se foram.
Espera
aí, tem um senhor no banco da praça. Ele está só. Quais as cores pintaram seu
passado? Ali sentado, sozinho, seu presente parece tão sem cor, tão bege! E seu
futuro, será cinza?
Enquanto
busca a mistura perfeita, o tom ideal, o dia passa, e o pintor volta para casa
com a tela cheia de figuras inacabadas: um sol sem brilho, um olhar
indecifrável nos contornos de uma moça, os rabiscos de uma bicicleta e o esboço
de um velho que vê a vida acontecer.
De
quantos rascunhos construímos nossas vidas? Quantas coisas deixamos de viver
plenamente esperando o momento oportuno? Quantas pessoas passam por nossas vidas,
e nem nos damos conta da cor dos seus olhos?
A
vida é uma paisagem em eterno movimento. Por isso não dá para perder tempo
tentando encontrar a cor ideal, o momento certo e a tinta perfeita. O que
parece extravagante pode está na medida certa.
A
paisagem muda o tempo inteiro, e se não vivemos a cena ao vivo ela muda, e se
esperamos o momento ideal, a hora certa, nos tornamos espectadores da vida. E
às vezes desse ângulo, a vida pode parecer desbotada demais.
Nair
Gevezier 10/05/2017.